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A GENTE NÃO SE APROPRIA DOS PRÓPRIOS FATOS"

Professora doutora em Turismo, Rosana Mazaro, que fez a travessia do Atlântico em um veleiro, analisa o fato da tese do "descobrimento" do Brasil no RN não ser explorada como deveria e gerar benefícios ao estado

Entre os anos de 2008 e 2015, a professora Rosana Mazaro, que foi do Departamento de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, foi uma das pessoas que empunhou a bandeira do estado usar as evidências históricas a seu favor e explorar turisticamente a hipótese de que foi no RN que os portugueses chegaram primeiro.

As bases para apontar isso foram o projeto “O Brasil começa aqui – Patrimônio histórico-cultural como recurso endógeno para a inovação em turismo na região do Marco do Descobrimento/RN”, que gerou uma dissertação de mestrado levantando tudo sobre o assunto; e o fato de que ela e seu marido fizeram a travessia do Atlântico em um veleiro.

Ou seja, além de entender de turismo e da tese do “descobrimento”, ela também é navegadora.

No período em que atuou no estado — ela hoje reside na Espanha — Rosana Mazaro chegou a conceder entrevistas nacionais falando sobre o assunto. Passados pelo menos dez anos desde que lidou com a questão, ela analisa hoje essa retomada da discussão.

A professora é enfática ao afirmar que o RN perde muito por não se apropriar de seus temas. E que só de haver a hipótese do chamado “descobrimento” ter ocorrido na costa potiguar, isso já seria motivo de sobra para termos ganhos turísticos e econômicos.

Rosana Mazaro, professora doutora em Turismo

Como foi que a senhora se envolveu com essa questão da chegada dos portugueses aqui no Brasil?

Tem muita gente até que me confunde, me chama de historiadora, e eu fico devendo para os historiadores porque eu não tenho essa formação. Minha área é turismo, gestão do turismo, gestão de destinos turísticos. E, dentro disso, o que é que nós estudamos? Quais são os elementos que se pode aproveitar como atrativo turístico.

Dentro dessa classificação, o turismo trabalha com os fatos históricos como um dos elementos de atração, para construir atrativos. Dentro da universidade, eu instalei um programa de pós-graduação que até tem doutorado, o único doutorado público aí no país.

O que é que isso implica? Minha área é justamente levantar o que a gente chama de recurso turístico para transformá-los em atrativos, para ser competitivo. Ou seja, a minha lógica era dentro da gestão.

Só que a gente se depara com um fato desse, que é superimportante, e pouco se passa pela história. Pela história: “Chegou na Bahia e tem dois marcos”. É só isso que você aprende. E aí me deparei com essa polêmica histórica (do RN ser o primeiro ponto de chegada dos portugueses).

E foi muito curioso. Eu aprovei um projeto de pesquisa, na verdade, uma parceria — se eu não me engano — CNPq com Ciência e Tecnologia de Inovação. Era um fator para a inovação em turismo ali na região. O fator histórico que, sendo o primeiro, era importante e deveria ser melhor aproveitado. Era essa a nossa lógica.

A gente começou a trabalhar o aspecto e fomos atrás do historiador. História é um dos elementos importantes dentro da formação em turismo, sem dúvida nenhuma.

Em que ano?

Entre 2008 e 2015, mais ou menos, eu trabalhei com essa temática de uma forma muito sistemática. E aí um dos resultados foi uma dissertação de mestrado. Porque teve um aluno (Bernardo Meister Gehrke) que se envolveu num projeto desses do Sebrae, se eu não me engano, de capacitação da comunidade, e mergulhou na questão. Se apaixonou pela causa.

Aproveitamos esse projeto. Ele fez uma dissertação que vai fundo nesses aspectos. Dada a relevância, a gente começou a trazer à tona. Aí juntamos com a fala dos historiadores, das pessoas interessadas e também das adeptas da hipótese, dessa versão da história.

Eu me lembro até que teve uma audiência pública promovida por um deputado lá em Touros. O Estado teve um ano desses que fez um concurso de monografias entre os formandos do segundo grau, e essa foi a temática. Teve um evento bem grande da formatura, no Centro de Convenções, que eu fui lá falar.

Ou seja, criou-se toda uma discussão, uma temática sobre o aproveitamento disso. Esse tema veio à tona novamente. Ou seja, uma mobilização. E então acabei me envolvendo nisso.

Por quê?

Porque nessa pesquisa a gente foi juntando o que foi chamado pelos historiadores e por todas essas pessoas de evidências, que são muito factíveis. Então, se levanta essa suspeita e, como eu já disse em algumas entrevistas, não sei qual é a prova cabal que nós — porque parece que muitos dos documentos, até do próprio Caminha e dos registros, foram perdidos. Houve incêndio nos museus em Portugal e em lugares onde estavam guardados.

Eu tinha uma intenção, até propus ao Bernardo, que acabou não se concretizando, de fazer um doutorado e vir a Portugal para ver as fontes daqui. Mas eu não sei se foi explorado tudo isso. Eu acho que merece muito, e até um despertar pelos portugueses, porque me parece que a Bahia tem um marketing melhor. Como eu sempre disse, o que eles fizeram foi falar primeiro.

Aí construíram toda uma história e tal. Eu sinceramente acredito muito no fato. Eu acho muito factível, muito provável. Fora os questionamentos que se tem mesmo de parte do que tem na Bahia. Questionamentos da legitimidade, ou pelo menos da originalidade do Marco. Mas parece que tem gente que não quer reescrever a história não, porque está bem assim. Reeditar os livros seria muito complicado.

A senhora fez a travessia do oceano em um veleiro?

Fiz. E vou te falar: navegação em um veleiro e já com os recursos. Porque qual a primeira evidência, digamos, primeira em um sentido de uma ordem de critérios? Esse da navegação, tanto no que diz respeito a ventos e correntes, que eram absolutamente desconhecidos por eles, e as restrições de navegação das caravelas.

Somando esses dois aspectos, eles fizeram isso em 1500. Eu vim para cá no ano 2000. Ou seja, já um ano tecnologicamente avançado. Ainda que meu veleiro não fosse top de linha, mas GPS já tinha e todo um estudo de correntes e ventos do planeta todo, já mapeados. Porque esses são constantes, ventos e correntes marítimas que são permanentes.

Com tudo isso estudado. E eu lembro de todo um esforço dos velejadores que fazem esse percurso. Porque tem uma rota natural que é Costa Brasileira, Nordeste, Caribe, o Sul ali dos Estados Unidos, até mais ou menos 40°, ali Nova York, vento oeste, pega a costa do Atlântico lá Portugal, desce. Ou seja, roteiro de um ano seria de ciclo de vento favorável. É mais ou menos isso.

E quando você desce o Atlântico, quando você sai de Cabo Verde para passar essa zona subtropical, ela é absolutamente inconstante. É onde os ventos nascem e onde eles morrem. A gente está a 5° aí em Natal, ao sul do Equador. Agora, 8° norte, você tem uma variação de vento e às vezes uma calmaria. E tem um efeito de corrente que ela arrasta para o Caribe mesmo.

Por exemplo, se você sai de Cabo Verde desavisado e vai sendo arrastado, quando você chega aqui um pouco antes do Equador e encontra os alísios, que são os que batem forte aí na nossa costa — e só da Paraíba para cima, não vamos esquecer — você é arrastado para o Caribe. O velejador sonha com essa paranóia ali. Então, eles encostam na África, eu não tô brincando. Eles vão a Dakar para tentar pegar o máximo dos alísios lá e cruzar numa velocidade só.

Nós fizemos diferente porque meu capitão era abusado e também a gente foi acompanhando. Então, nos preparamos, por exemplo, com muita economia de combustível para encarar um contravento que tu começa a pegar o efeito acima desse alísio. Então, você pega ele na cara, é um sul. Um sul mesmo, assim, que vai chegando no Cabo Verde. Então, você tem que fazer muita manobra e muito esforço para vir nesse contravento, para chegar na costa aqui, no extremo nordeste.

Então, foi assim suado, muito cálculo e nós tivemos amigos velejadores que nós saímos juntos, fizeram uma rota diferente, nos encontramos em Canárias, em Cabo Verde, o último ponto. Ele foi para Dakar. Então, nós fizemos essa opção de ir descendo mais devagar, encarando o contravento e às vezes forçando com o motor até encontrar os alísios.

Mas a corrente é coisa de dois nós, dois nós e meio. Isso é muito de deriva. Então, pensando a limitação — e eu tô falando de um veleiro que orça. Orça é quando pega mais o contravento. Uma caravela não tem muita orça, ela não tem ângulo de orça. Então essas restrições e depois as evidências encontradas em terra, de cálculo, que o segundo marco, a distância entre o Marco daí e o segundo em Cananéia corresponde aos registros e não da Bahia.

Eu acho que é só questão de resistência mesmo. Não sei qual comprovação que a história precisa. Por tudo isso, eu abracei a tese. A gente aproveitou tudo isso e fez vários projetos ali para desenvolvimento. Hoje o turismo vive de storytelling. E a gente tem uma storytelling para aproveitar. É o que eu dizia: o Rio Grande do Norte está cheio de temas, mas não sabe aproveitar.

Então na sua avaliação, seria muito difícil Cabral chegar a Porto Seguro?

Eu não posso dizer impossível. Mas eu apostaria numa boa base estatística. Vamos deixar lá naquela imagem de erro do estudo dos 95% de possibilidade, mais até. Eu realmente acho. E porque tem outros fatores. Então, eu aposto mesmo que essas evidências são muito fortes e que a probabilidade é muito grande, é muito grande.

E tem um fato que é muito interessante, porque depois eu fui me aprofundando. A gente levantou dados, estudou bastante documentos e um deles, então, dizia que os índios potiguares eram antropófagos. Canibais e muito hostis. Extremamente hostis. E que os índios da Bahia já aceitaram melhor o negócio, já gostaram do brilho do ouro, já se deixaram seduzir.

Então, diz que o nome atribuído a Porto Seguro não é pela condição de navegação. E aí eu vou lhe dizer que isto é verdade. Porto Seguro é um horror para ancorar. Os bancos de areia, ali você tem que ser muito esperto. Então, é base ali, Arraial d'Ajuda, é base para os barcos que vão a Abrolhos porque é mais perto. É base para esses barcos que não tem profundidade, mas para nós, por exemplo, veleiro com calado, isso já é uma dificuldade.

Então, foi chamado de Porto Seguro justamente por isso: porque eles foram bem recebidos pela população local. Não tem nada a ver com a condição de navegação também, porque a costa do Nordeste toda, infelizmente, ela não tem águas abrigadas. Ela não tem milhas perto que permita, por exemplo, o que já tem do Rio de Janeiro para baixo. A própria Bahia, depois de Salvador que muda muito. Eu me lembro que quando a gente subiu a costa, não entramos em Porto Seguro. A gente foi parar em Ilhéus.

O que o Rio Grande do Norte perde por não explorar essa tese com tantas evidências?

Como raciocínio em termos turísticos, acho que nós estamos perdendo um montão. Porque Porto Seguro não é nada sem esse fato histórico. Não seria nada se não fosse esse o fator primordial. Hoje vivemos de experiências, de história e de atributos do lugar, e nós temos aí um muito forte.

Olha, eu vou te falar: eu revolucionaria ali Pedra Grande. Faria um grande memorial. No formato das ocas indígenas, que são maravilhosas. Enfim, nós perdemos em termos disso, de reconhecimento histórico. Isso é um fator histórico importante. Para a navegação isso é muito importante. Para cultura náutica, isso é importante, que é uma outra batalha que a gente tem, que o Brasil é um país de costas para o mar, as pessoas nem entendem as condições assim.

Enfim, eu acho que por ser um fato histórico questionável, eu acho que ele por si só já é bastante relevante. E depois ele pode ser usado tanto como reconhecimento histórico como para gestão dos destinos. São municípios muito carentes. Touros, São Miguel e Pedra Grande — que são os três municípios envolvidos — têm imensos atributos para serem aproveitados em termos de atração de visitantes e de contar a história do Brasil.

O Brasil é um país que precisa de muito conhecimento. Eu acho que só tem ganhos e não precisa comprar briga com a Bahia. E eu acho que também é preciso ver isso sob o aspecto da reparação histórica. Por que eu vou incorrer num erro, se é questionado? Ou ficar contando uma história que não é verdadeira?

Eu acho que está aí pelo menos a hipótese lançada. E é como eu disse também numa das entrevistas: a dúvida já é um atrativo. Seja ou não seja, no turismo o que importa é a dúvida. A polêmica é até melhor. A polêmica é ótima como atrativo. E a gente nem está fazendo uma provocação. A gente está levantando elementos que põem em questão isso.

Há um comentário que fazem que esse turismo em Porto Seguro, por conta do chamado “descobrimento”, renderia em torno de R$ 1 bilhão por ano. A senhora tem conhecimento disso?

Eu acredito. Devolvo a pergunta: o que seria Porto Seguro sem esse fato histórico? A gente não pode especular, mas o que a gente sabe é que Porto Seguro só é Porto Seguro hoje por conta desse fato histórico. Senão, ele seria talvez uma outra praia lá que a gente nem saberia o nome. O meu raciocínio como cientista é isso: levantar questionamentos.

A senhora encontrou resistência com relação a essa tese aqui no Rio Grande do Norte?

Pelo contrário. Só apoio. Não. Teve uma pessoa assim, que agora eu não vou me lembrar, ele até esteve na audiência (em Touros). Porque ele dizia que para isso a gente não tinha que questionar, mas sim reconhecer o fato de que foi o primeiro tratado, acho que é uma data aí de agosto de fundação do Rio Grande do Norte. Teve um alguém que nos questionou, dizendo que isso era irrelevante. Eu não concordo. É porque queria chamar atenção para a tese dele. Eu senti ali na hora que, tipo assim: “não, a minha tese é mais importante, daí vamos isso que é fato, que se pode comprovar, não vamos comprar essa briga com a Bahia”.

Por que não andou esse trabalho de aproveitar essa tese?

Interesse político. Só isso que faltou. Pronto. Interesse político. Para mim faltou muito interesse e falta de visão.

Vocês estão num estado lindo. Morei 23 anos, 25 no RN. Minha filha nasceu aí. Quando cheguei de barco, falei: “É aqui que eu vou ficar, maravilhoso”. Mas, então, me decepcionei muito com isso, sabe? Com essa falta de vontade. É por isso que eu digo: a Bahia foi lá, catou o negócio, fez o marketing e ó, se apropriou. É que a gente não se apropria dos próprios fatos. No caso. Acho que essa é a palavra.