A HISTÓRIA DO PREFEITO QUE ERA UM GRANDE ESCRITOR
O relatório de prestação de contas da Prefeitura de Palmeira dos Índios no ano de 1928, publicado em janeiro de 1929 no Diário Oficial de Alagoas e replicado em jornais de Maceió e do Rio de Janeiro, revelou ao Brasil um dos nossos maiores romancistas. A estrutura e a qualidade do texto, atípicas em documentos do gênero, despertaram a atenção do poeta e editor carioca Augusto Frederico Schmidt, que suspeitou no autor – o prefeito Graciliano Ramos – um escritor à espera de revelação. Schmidt entrou em contato com ele, que revelou ter na gaveta um romance inédito (Caetés). O livro seria editado em 1930, ano da publicação do segundo relatório do prefeito que iniciava ali a consagração como um dos principais nomes do romance brasileiro.
A linguagem dos relatórios, agora reunidos pela editora Record no livro O prefeito escritor: dois retratos de uma administração, já evidencia as qualidades estilísticas que particularizam a literatura de Graciliano. O texto é austero, substantivo, sem quaisquer vestígios da adiposidade que governa os jargões da escrita burocrática. As frases são curtas, quase telegráficas, na ordem direta. O vocabulário tende ao simples, com o vinco da oralidade. O conjunto expressa na forma e no conteúdo a legenda que o alagoano adotou como mandamento estético, segundo ele mesmo admitiu, em entrevista publicada em 1948: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar, como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.
O tempero à secura de talhe agrestino é o humor de timbre (auto)irônico, que Graciliano cultivava na escrita e nas conversas cotidianas. Ele transparece da conclusão do relatório de 1928, remetido ao governador em 10 de janeiro de 1929:
“Não favoreci ninguém. Devo ter cometido inúmeros disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca”
Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.
Evitei emaranhar-me em teias de aranha.
Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam com autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos,
Não me entendi com esses. Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisa tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos.
Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 [um conto, trezentos e vinte e cinco mil e quinhentos réis] de multas.
Não favoreci ninguém. Devo ter cometido inúmeros disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não tivesse dez votos.

Graciliano Ramos
O CANDIDATO MODESTO
Para ganhar a eleição disputada em 07/10/1927, Graciliano Ramos viu-se emaranhado num processo político que reproduziu, na campanha e no dia da votação, os vícios e subterfúgios à legislação costumeiros no Brasil da República Velha. A candidatura dele foi sugerida pelos chefes locais do Partido Democrata e da família Cavalcanti, o deputado estadual Francisco e seu irmão Otávio. O município vivia um período de violência, que culminara no assassinato do prefeito Lauro de Almeida, após desentendimentos com um fiscal de tributos. O terço final do mandato foi concluído pelo vice Manuel Sampaio da Luz.
O recurso dos Cavalcanti ao nome de Graciliano deveu-se ao bom conceito público – sério, honesto, franco – do então diretor da Junta Escolar municipal e comerciante de tecidos com loja legada pelo pai. O velho Sebastião Ramos estabelecera-se em Palmeira dos Índios depois de um périplo iniciado em
Quebrangulo (AL) e passagens por outras cidades dos sertões nordestinos. Graciliano morava em Palmeira desde 1915, quando desistira de trabalhar no Rio de Janeiro como jornalista, por causa da penúria financeira, e juntara-se à família no sertão alagoano.
Além das qualidades morais que resultaram no convite para disputar a prefeitura, ele tinha a fama de inteligente e culto, alimentada pelos contos e sonetos publicados em jornais. Nas horas longe do serviço público e do comércio, dedicava-se à composição de Caetés, justamente um dos motivos alegados para refugar a primeira investida dos Cavalcanti para fazê-lo candidato contra o nome do Partido Conservador. O escritor temia que a nova atividade roubasse o tempo indispensável à conclusão do livro, ao qual se dedicava com rigor e método, compondo ao menos uma página manuscrita de papel almaço por dia, entre goles de cachaça e incontáveis cigarros de fumo caporal.
Graciliano resistiu por semanas ao assédio dos Cavalcanti, que tornaram o convite público para aumentar a pressão sobre ele. “Só se Palmeira estivesse com urucubaca”, gracejava o escritor, com a autoironia que era marca pessoal. Ele só mudaria de ideia depois que os conservadores passaram a debochar de suas negativas, espalhando que estaria com medo da derrota. Impôs, porém, uma condição: não pediria votos a ninguém e nem participaria de atos de campanha. Os Cavalcanti aceitaram os termos e cuidaram de, seguindo o espírito do tempo, recorrer aos métodos de praxe para eleger seu candidato. “Fui eleito naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando”, admitiu Graciliano, anos depois.
O PREFEITO EXEMPLAR
Depois de assumir o cargo, Graciliano logo confirmaria as melhores expectativas dos admiradores e as piores dos detratores. Os primeiros louvariam a gestão inovadora, que aboliria padrões imorais de governança enraizados na prefeitura. Os demais lamentariam a perda de privilégios ocasionada pela ruptura de hábitos insalubres, que degradavam o ambiente urbano e favoreciam o surgimento de epidemias, e o fim do clientelismo, do fisiologismo, do patrimonialismo e de outros vícios antirrepublicanos que corrompiam a gestão pública. No item inicial – “Começos” – do Relatório ao Governador do Estado de Alagoas referente a 1928, o prefeito resume a calamidade moral e financeira que encontrou, as correções adotadas e as reações levantadas contra seu ímpeto saneador:
O PRINCIPAL, o que sem demora iniciei, de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração. Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses resolviam questões de polícia e advogavam.
Para que semelhante anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.
Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
Não sei se a administração é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior.
“Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados”
A administração era boa, embora o prefeito preferisse não se gabar “de empregar dinheiro com inteligência”. A cidade ganhou o primeiro posto de saúde, novo açougue, drenagem e pavimentação de ruas, coleta regular de lixo. Nas empreitadas de maior vulto, como a construção ou o reparo de estradas, empregou os presos na cadeia pública. As medidas profiláticas foram atacadas por muitos munícipes, entre os quais Sebastião Ramos, que reclamou com o prefeito da multa recebida ao infringir, criando animais soltos na rua, o código municipal recém-promulgado. “Prefeito não tem pai”, ouviu do filho, sem ousar contestá-lo.
A aversão ao favorecimento de parentes é reafirmada no trecho do relatório em que Graciliano volta a exercitar-se num dos seus jogos mentais favoritos, o menoscabo de si: “Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados.”
O conjunto de normas e posturas que contrariou o velho Ramos foi o primeiro efetivamente adotado pela prefeitura para reformar hábitos viciosos, como o desrespeito dos comerciantes aos pesos e medidas na venda de mercadorias, fraudando os consumidores, ou o hábito generalizado de emporcalhar ruas e quintais com monturos de lixo, prejudicando a saúde pública. Graciliano teve dificuldades para obter a aprovação do código pelos legisladores municipais, por incorporar inovações que desafiavam práticas ancestrais, baseadas em regulamentos pré-republicanos:
Em janeiro do ano passado [mês da posse] não achei no município nada que se parecesse com lei, fora as que havia na tradição oral, anacrônicas, do tempo das candeias de azeite.
Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem.
Afinal, em fevereiro, o secretário descobriu-o entre papéis do império. Era um delgado volume impresso em 1865, encardido e dilacerado, de folhas soltas, com aparência de primeiro livro de leitura do Abílio Borges. Um furo. Encontrei no folheto algumas leis, aliás bem redigidas, e muito sebo. Com elas e com outras que nos dá a Divina Providência consegui aguentar-me, até que o Conselho, em agosto, votou o código atual.
“Arrecadei mais de dois contos de réis de multas. Isto prova que as coisas não vão bem. Pequeninas irregularidades passam despercebidas. As infrações que produziram soma considerável para um orçamento exíguo referem-se a prejuízos individuais e foram denunciadas pelas pessoas ofendidas, de ordinário gente miúda, habituada a sofrer a opressão dos que vão trepando”
Avesso a badalações, Graciliano deplorava os gas- tos com divulgação. O relatório contém agulhadas no antecessor – e nos prefeitos em geral – por ter incluído no orçamento de 1928, elaborado no ano anterior ao início do seu mandato, gastos sistemáticos com ‘telegramas’ difundindo os feitos da administração ou efemérides locais:
Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a perna – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1559 D.Pero Sardinha foi comido pelos caetés.
LIÇÕES DE GOVERNANÇA
O segundo relatório do prefeito escritor, prestando contas da gestão em 1929, repetiu o sucesso nacional do primeiro. Assim como o antecedente, o novo texto, datado de 11 de janeiro de 1930, prima pela concisão e a limpidez verbal características do melhor Graciliano. Mescla o azedume que definia seu temperamento com a fina compreensão da psicologia sertaneja, numa liga que elevaria três de seus personagens romanescos – o retirante Fabiano, de Vidas secas, o fazendeiro Paulo Honório, de São Bernardo, e o funcionário público e escritor Luís da Silva, de Angústia – à galeria de grandes protagonistas da literatura brasileira.
O resultado da fórmula é um conjunto de frases certeiras, sem meias palavras, que deleitam o leitor do documento burocrático com frases que carregam, sob a capa da funcionalidade informativa, alto teor de valor estético. Pedagógicas, elas podem ser lidas por prefeitos de hoje também como um breviário da boa governança, erguida sobre pilares como supressão de privilégios; justiça fiscal; definição correta de prioridades; fiscalização e controle dos gastos; transparência na aplicação dos recursos; e qualidade das obras, dos serviços e dos servidores públicos.
“Não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores.”
(Sobre a cobrança igualitária de impostos).


“Arrecadei mais de dois contos de réis de multas. Isto prova que as coisas não vão bem. E não se esmerilharam contravenções. Pequeninas irregularidades passam despercebidas. As infrações que produziram soma considerável para um orçamento exíguo referem-se a prejuízos individuais e foram denunciadas pelas pessoas ofendidas, de ordinário gente miúda, habituada a sofrer a opressão dos que vão trepando. Esforcei-me por não cometer injustiças. Isto não obstante, atiraram as multas contra mim como arma política. Com inabilidade infantil, de resto. Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma o pasto em lavoura, devia enforcar-me.”
(Sobre a aplicação de multas aos sonegadores de tributos e a outros infratores).
“Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São munícipes que não reclamam.”
(Sobre os gastos com a conservação do cemitério).
“A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser um negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.”
(Sobre o custo da iluminação pública).

Estátua do escritor na praia de Ponta Verde, Maceió
