ÁGUA:DA ESCASSEZ AO LUXO DO DESPERDÍCIO
Spread the loveO mal que a falta d’água faz já foi emblematicamente cantado em várias oportunidades, inclusive por nordestinos, o que não é de se admirar, diante da realidade árdua que continua presente em grande parte do semiárido da Região Nordeste do Brasil. Logo, falar aqui no prejuízo que a secura traz para o ambiente […]

D’ALEMBERT ARRHENIUS ALVES DOS SANTOS
Advogado do escritório JCGG
O mal que a falta d’água faz já foi emblematicamente cantado em várias oportunidades, inclusive por nordestinos, o que não é de se admirar, diante da realidade árdua que continua presente em grande parte do semiárido da Região Nordeste do Brasil.
Logo, falar aqui no prejuízo que a secura traz para o ambiente como um todo seria, com trocadilho e tudo, chover no molhado. E é exatamente a partir desse trocadilho que tenciono desenvolver este pequeno ensaio.
Geralmente, nos chamados grandes centros urbanos, encontra-se a mais clara acepção do chover no molhado, no sentido da imaginada inutilidade da água ou até mesmo do dito prejuízo provocado pela abundância ou fartura da água, a exemplo de alagamentos decorrentes de chuvas que dificultam ou impedem o trânsito e, em alguns casos, chegam mesmo a provocar, como dizem, morte humana.
Em situações como a descrita no parágrafo anterior, já se tornou lugar-comum o discurso por que os tais alagamentos foram inevitáveis diante do volume da chuva, pois a cidade não estava preparada para um volume tão grande de chuva num intervalo tão curto de tempo.
Mas, tem um outro ponto que dialoga diretamente com o precitado discurso e não é levado muito a sério: se o Poder Público continuar de braços cruzados, a cidade vai continuar despreparada para receber a chuva. Às vezes, o óbvio precisa ser dito, como quando disseram que o rei estava nu.
É verdade que grande parte das cidades brasileiras não foi planejada urbanisticamente, mas também é verdade que muito pouco ou quase nada tem sido feito, ao longo dos anos, para remediar esse déficit urbanístico, o qual compromete até mesmo as chamadas funções sociais básicas da cidade.
A justificativa do gestor público para aquela inação também tem sido um lugar-comum, a saber, a resolução do problema demanda grandes investimentos e a máquina pública não dispõe de tamanho fôlego financeiro.
Ocorre que nem sempre é preciso contar com uma montanha de dinheiro para, pelo menos, iniciar um processo de reversão daquele quadro desastroso de cidade despreparada para receber chuva. Explico.
A exagerada impermeabilização do solo, por exemplo, com asfalto, edificações etc. por toda parte, está diretamente relacionada com aqueles alagamentos, sobretudo nos grandes centros urbanos, pois impede a infiltração da água da chuva no solo, a qual acontece naturalmente, por exemplo, em áreas verdes, praças e parques dotados de ampla arborização.
Com efeito, espaços livres de edificação, como os mencionados no parágrafo anterior, além da função recreativa, servem para equilibrar o ambiente urbano3 de diversas formas, incluindo a absorção da água da chuva, tanto que não se costuma ver imagem ou ler manchete de alagamentos terríveis decorrentes de chuvas naquelas áreas.
A ampliação ou conservação de tais espaços, por exemplo, é uma medida que (i) pode efetivamente contribuir para a reversão daquele cenário de cidade despreparada para receber chuva, (ii) não demanda investimentos astronômicos e (iii) pode ser implementada no âmbito do controle do uso e ocupação do solo urbano que, não custa lembrar, compete ao Município e deve ser objeto de atenção do gestor público municipal realmente interessado no bem-estar dos seus munícipes.
Portanto, está mais do que na hora de agir efetivamente para beneficiar a população local com a água da chuva, em vez de permitir, por inércia histórica, que esse bem ambiental essencial para a vida na Terra possa ser visto como um problema pela coletividade, sobretudo, a sua parcela menos favorecida economicamente, por ser quem mais costuma sofrer com tais alagamentos.
A propósito, não custa lembrar que a procura por vida no ambiente extraterrestre não se inicia com a pesquisa por dinheiro, curtidas, número de seguidores ou sinal de internet, mas por água.
