... E ELES NÃO CONSULTARAM O COMPLIANCE!
A surpresa genuína que a pergunta produziu é a parte mais importante:
“Por que o senhor fez isso”?
“Isso, o quê”?
“O senhor deixou ele ganhar!!!”
“Mas eu não deixei. E ele ia ganhar”.
Navarra, Espanha. Tarde de 02 de dezembro de
2012. Chegada de uma prova de Cross-Country.
À frente, Abel Mutai do Quênia, que havia faturado o ouro nos 3 mil metros com obstáculos nas Olimpíadas de Londres naquele ano. Televisão, fotógrafos, jornalistas, grande público...
Aproximando-se da chegada, faltando poucos metros para a linha final, Abel Mutai parou! Em segundo lugar vinha Iván Fernández Anaya, espanhol.
O que aconteceu, alguns dias depois, Ivan contou
assim:
“Faltando uns seis quilômetros para o fim da corrida, o queniano Abel Mutai muda de ritmo e passa à minha frente. Mas, faltando uns 15 ou 20 metros, vejo que ele para e não cruza a linha de chegada. As pessoas ali presentes tentam ajudar, dizendo-lhe para seguir adiante. Mas é claro que ele não entende espanhol e crê que já cruzou a linha de chegada. Ele foi superior a mim em toda a corrida, e o único intento que tive foi o de levá-lo até a linha. E fiz nesse momento o que meu coração pediu.”
Mas, naquela tarde, ninguém conseguia entender, e o repórter insistiu:
“A regra lhe favorecia. Por que o senhor não cruzou a linha na frente dele?!”
“E qual seria o mérito da minha vitória?”, questionou o espanhol, acrescentando ainda:
“Qual seria a honra do meu título se eu deixasse que ele perdesse?”
"Edgar Morin já havia tratado da questão, cunhando o termo “autoética”, e Charles Handy – consultor de grandes organizações – entende que cada um de nós precisa descobrir e praticar o que ele chama de “egoísmo adequado”
Imagine aí o que estava em jogo: além da glória do vencedor, dinheiro, muito dinheiro. O prêmio ao primeiro colocado, novos contratos de publicidade, valorização do direito de imagem e por aí vai. Vou dizer mais uma vez: penso que o mais importante nessa história é a surpresa que a pergunta causou a Iván.
Ele não precisou consultar as regras da corrida, nenhum Código de Ética, o Responsável por Compliance. Nada. Nem ninguém.
Seu ato resultou de uma atitude – fonte de atos - diante da vida.
Aqui somos apresentados a uma questão fundamental, como pensa Gilles Lipovetsky, ao dizer que o desafio das nossas sociedades modernas não é reabilitar a moral, pois isso já está feito (está na moda falar sobre a importância dos valores morais, aliás, produzindo mais calor do que luz), mas de fazer crescer, nessas sociedades, o que ele chama de um individualismo responsável, tentando diminuir a irresponsabilidade individual.
Edgar Morin já havia tratado da questão, cunhando o termo “auto-ética”, e Charles Handy – consultor de grandes organizações – entende que cada um de nós precisa descobrir e praticar o que ele chama de “egoísmo adequado”. Sobre essas expressões a gente pode conversar depois.
Vamos adiante.
Clamamos por uma sociedade ética. Por ética na política, nas empresas, nos esportes. A nossa intolerância com a deplorável conduta e a desfaçatez de muitos tem se transformado em revolta, aqui entre nós, carregada de motivos.
Mas... e o nosso comportamento individual? E se não houver ninguém vendo? E se ninguém souber? E se tivermos certeza de que passaremos impunes? E se a punição – ou o seu risco – for pequeno comparado com o que se pode ganhar?
Conhecem o mito de Giges? É uma história usada por Platão para nos falar da natureza humana, tal como ele a via. Qualquer site de busca lhe mostrará a história toda.
Mas, resumindo, é assim: um homem de modos e hábitos corretos, um cara legal, encontra um anel mágico. Esse anel, quando se torcia o engaste para o interior da mão, tornava o seu portador invisível.
Ele fez alguns testes para ter certeza de que o negócio era seguro, e aí pintou e bordou, aprontou geral com todo mundo. Achando pouco, foi ao Palácio, seduziu a rainha, matou o rei e assumiu o trono.
Grande canalha, esse tal de Giges. Sem dúvida.
Mas, e se a gente topasse com um anel desses por aí? Hein?
E os pais que compraram as questões do ENEM ou contrataram um bandido para fazer as provas no lugar dos seus filhos? Ou coisa mais miúda, como estacionarmos indevidamente na vaga de pessoa com deficiência ou de idoso? Ou estacionarmos fechando uma garagem? Pense aí outras...
Marvin Bower, (1903-2003), o pai da Consultoria como nós a conhecemos, o homem que foi o espírito da McKinsey, considerava repulsiva a expressão “ética nos negócios”. Para ele, existe ética e ponto. Ou somos éticos, e o somos na vida, ou não somos!
Kant disse que se você não puder dizer como fez, não faça. Mas, atenção. Ele não estava se referindo ao sigilo. Claro que há muita coisa que requer confidencialidade, que não deve ser contada. O que ele falava era de vergonha, considerando que, se há razões para não poder contar, porque nos envergonhariam, são essas mesmas as razões para não fazer. É bem verdade que muita gente, ao quesito vergonha, responde: Nada a declarar.
"O consumo ético torna-se. um valor que muita gente está buscando como forma de afirmação pessoal. A valorização da ética, que nunca foi evidente no mundo dos negócios (business is business), virou prioridade"
Mas, ao que parece, a exigência ética entrou para valer na regra do jogo capitalista. Quem diz isso, entre outros, além dos já citados Lipovetsky e Handy, é gente como Gary Hamel (consultor de grandes empresas nos Estados Unidos e na União Europeia, autor dos principais livros sobre estratégia empresarial nos últimos 20 anos).
Multiplicam-se pelo mundo os fundos de investimento em produtos éticos, liderados por grandes bancos e seguradoras (essa turma sabe o que dá dinheiro e sai na frente).
O consumo ético torna-se um valor que muita gente está buscando como forma de afirmação pessoal. A valorização da ética, que nunca foi evidente no mundo dos negócios (business is business), virou prioridade.Para responder às exigências dessa nova sociedade, as empresas – acertadamente – estão revendo suas práticas e formalizando Políticas de Integridade e Compliance, mediante a edição de Códigos de Ética ou exigindo mais rigor aos existentes, e por aí afora.
Ocorre que nada disso vai funcionar sem que as Organizações passem a contar com pessoas que sejam éticas, não movidas por temor, coação, submissão, ostentação, falta de opção ou medo de punição.
As práticas dessas empresas e organizações somente estarão em conformidade (compliance) com as leis, normas, códigos etc., e somente terão resultados sustentáveis, se os seus integrantes praticarem a auto-ética, o individualismo responsável, o egoísmo adequado.
Há uma pergunta cuja formulação muda aqui e ali – mas o cerne é o mesmo – e que vem ocupando as melhores cabeças nos últimos 150 anos:
“Será possível, sob a égide do capitalismo, viver a dialética, o paradoxo entre ser ético e competitivo?” Pelo que a gente vai constatando no mundo de hoje, parece que chegamos a uma inversão dos termos: sem ética, está ficando mais difícil – e cada vez fica mais – ser competitivo.
Muitas empresas já se convenceram – e as que não se tocaram já têm ou terão sérios problemas – de que seu cliente não é apenas, como sempre foi visto, um consumidor. Ele agora se reconhece e exige ser considerado como um ser humano pleno. Ele é razão, coração, espírito e há um componente ideológico nas suas escolhas. Ele questiona os compromissos e práticas das empresas com os trabalhadores, com as comunidades onde atuam, com a sociedade, com a natureza.
E esse novo (nem tanto assim) consumidor quer saber se os valores anunciados são praticados, ou se é conversa mole, marketagem. Ele é a um só tempo um consumidor e um produtor de informações. Há quem o chame de prosumidor.
"Esse novo (nem tanto assim) consumidor quer saber se os valores anunciados são praticados, ou se é conversa mole, marketagem.
Ele é a um só tempo um consumidor e um produtor de informações.
Há quem o chame de prosumidor"
Nessa nova sociedade, o pagador de impostos se descobre Cidadão/Cliente com direitos que até pouco tempo nem desconfiava que existissem; e, o mais importante, dispondo de meios e formas de fazê-los valer.
O poder de mobilização de uma sociedade como o Brasil – contando em 2023 com mais de 295 milhões de smartphones, 88 milhões deles conectados às redes sociais – começa a ameaçar os que sempre se sentiram impuníveis, eternos e, não raro, irresistíveis.
E agora, concluindo nossa conversa, vale lembrar que um comportamento ético autêntico é lastreado em valores morais, integridade, honestidade, senso de justiça e criterioso cumprimento dos compro- missos assumidos.
Eu sei, não é pouca coisa, nem é fácil ser assim neste mundo.
Mas, pense aí.
Não é isso mesmo que queremos – ou exigimos – dos políticos, servidores públicos, empresários, do- nos das escolas dos nossos filhos, borracheiros, mé- dicos, donos dos hospitais e planos de saúde que nos atendem, mecânicos e marceneiros que contrata- mos, dos nossos vizinhos e dos colegas de trabalho?
Começamos nossa conversa em Navarra e vamos terminar na bela praia de Caraúbas, aqui, pertinho de Natal.
Badiê era um pescador pobre, muito pobre. Quan- do não estava pescando, fazia bico nas casas dos veranistas. Gostava de contar histórias engraçadas, que ficam ainda melhores na prosódia de um gago. Sim, Badiê era ligeiramente gago.
Um dia, roubaram a rede de pesca de Badiê. Sem a rede, Badiê não tinha como alimentar a família. Mulher e quatro filhos. Por alguns poucos dias, os colegas dividiam qualquer coisa com ele, na beira da praia sempre se arranja. Mas Badiê tinha digni- dade, honra e lhe doía ficar sem dar conta de sua “obrigação”, “dependendo dos outros”.
Acompanhado por um dos veranistas, conhecido e respeitado médico, foi à polícia fazer o BO. O dele- gado garantiu ao “doutor” que ia resolver o proble- ma.
No dia seguinte, o delegado chamou Badiê e apontou:
“Taí, Badiê, sua rede.”
“Essa na-na-não é a mi-minha, não, senhor. Essa é mu-muito me-melhor”, disse Badiê, passando a ca- beça do dedo médio no polegar.
“Deixa de conversa, Badiê. Se é melhor, leva a rede e pronto.”
“Le-le-vo não, delegaaado. Essa hora o dono dessa rede taaá doidinho procurando por ela, que nem eu tooô pela minha.”
O honrado brasileiro Badiê de Caraúbas também não precisou consultar o Compliance.
