EM LAGOA DE VELHOS, MOEDA SOCIAL AJUDA A VENCER O DESAFIO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS
Prefeitura da cidade dá exemplo para todo o estado ao implantar o Fabião, moeda social que homenageia o poeta popular e ajuda a fazer da cidade a primeira do RN que caminha para zerar seu lixo
A coleta de resíduos sólidos tem se mostrado nos últimos anos um imenso desafio para as prefeituras do Rio Grande do Norte. Além da falta de aterros adequados, há a questão dos custos que o recolhimento e envio dos resíduos exige. Mas há uma cidade no estado que está conseguindo resolver isso e tem o objetivo de chegar ao status de "lixo zero". A experiência desenvolvida nesse município envolve, para além da coleta de resíduos, a valorização da cultura local e a conscientização da população, o que gera ganhos para outras áreas que a gestão precisa dar atenção. Tudo isso só foi possível graças a uma ideia inovadora e à crença de que o projeto poderia dar certo. Quem explica melhor essa história toda é o prefeito de Lagoa de Velhos, José Nildo Galdino.
Em 2023, a prefeitura da cidade, que fica a 93,4 km de Natal, era como a maioria das outras e discutia com o Ministério Público uma solução para o lixão que existia no município. Era preciso fechálo e destinar os resíduos adequadamente. "Eu visitava os catadores, via quanto era degradante lá o servięo deles e aí comeęou a surgir uma ideia, que era conscientizaęão ambiental casa a casa para que as pessoas separassem, entregassem os resíduos separados", conta.
Mas para isso era necessário estrutura. Foi então que a prefeitura deu baldes para a população (para o orgânicos, vidros e o rejeito, que vai para o aterro) e sacos (para os volumosos, plástico e papel). Mas após isso, a gestão viu que apenas distribuir os equipamentos não era suficiente. Era necessário um estímulo a mais.
Foi daí que surgiu a ideia de criar na cidade uma moeda verde ou moeda social que recompensasse os moradores por cada material recolhido e devidamente separado.
"No início do ano passado (2025), abril, maio, nós comeęamos a pensar no incentivo. Aí foi quando veio a ideia da moeda social. A princípio, a moeda poderia ser Lagoense ou Fabião. Mas como Fabião é muito forte, uma personalidade muito conhecida, venceu por quase unanimidade. Depois eu não vi ninguém mais querendo que fosse o Lagoense, decidiu que seria o Fabião. Então assim ficou, o Fabião".
O nome escolhido homenageia o poeta popular Fabião das Queimadas, que é de Lagoa de Velhos e para o qual a cidade dedica inclusive um museu. Ao ter a ideia da moeda social, o prefeito e sua equipe perceberam que somente a criação do Fabião não seria suficiente para fechar o ciclo que fizesse com que o sistema de coleta e recompensa funcionasse. "Aí surgiu a deia da loja, da ecoloja. Porque alguns associados já tinham a cultura de fazer o sabão com óleo que recolhiam", explica. Esse foi o primeiro passo: recompensar a população e, por meio da ecoloja e da moeda, viabilizar algum ganho real para quem recolhesse e separasse seus resíduos de maneira adequada.
O prefeito explica que a ideia de criar uma moeda social veio do conhecimento que ele tinha com relação à experiência que nasceu na década de 1990 no Conjunto Palmeiras, periferia de Fortaleza, no Ceará. Lá, a Associação de Moradores criou o Banco Palmas, que oferecia empréstimos com juros baixos e desenvolvia mecanismos para manter a economia da área aquecida. A iniciativa surgiu como resposta às dificuldades financeiras que a população do bairro enfrentava. Esse problema estava gerando a saída de muitos moradores do lugar. Incomodados com a situação, os membros da Associação deram início ao banco comunitário com a ideia de estimular a população a produzir e consumir dentro do bairro.
"Nós não queremos desvirtuar o objetivo principal do projeto. Zerar o lixo. A gente quer que a moeda tenha valor do resíduo, que as pessoas percebam o valor do resíduo"
Dentro da iniciativa, eles criaram a Palmas, moeda social que podia ser usada por moradores e comerciantes para comprar e vender produtos e serviços em estabelecimentos credenciados, sem precisar sair do bairro. No caso de Lagoa de Velhos, a ideia teve uma aplicação mais específica: a coleta de resíduos. "Eu já tinha lido e sabia como funcionava. Só que a moeda lá no Palmas ela vale um para um, um Real. Dentro do bairro lá de Fortaleza, ele funciona só aquela moeda e nos comércios, supermercados, indústria, tudo. Então é muito forte", explica Nildo Galdino.
Segundo ele, moradores e comerciantes da cidade já querem poder usar a moeda social para compras em geral, mas isso ainda não será possível. "Eles dizem: 'Olha, a gente não pode vender pão aqui com Fabião, não?' Eu digo: 'Podem não, porque é monopólio'. Hoje é o monopólio da Associaęão Mãos que Reciclam". Por enquanto ele quer manter o foco na coleta. E Por quê? "Porque nós não queremos desvirtuar o objetivo principal do projeto. Qual o objetivo principal? Zerar o lixo", afirma.

E acrescenta: "Se a gente for para esse outro lado, o lado turístico, o lado da economia solidária no contexto geral, vai desvirtuar porque a gente quer que a moeda tenha valor para o resíduo, que as pessoas percebam o valor do resíduo, quanto é que o plástico vale, que o papel vale, que o metal vale, que o vidro vale, que é exatamente para a gente zerar a geraęão de lixo".
Nildo Galdino observa que "zerar, zerar, zerar 100%” não é possível". "Só consegue quando o rejeito tiver um destino para a incineraęão, para gerar energia, alguma coisa assim como os países desenvolvidos fazem", detalha.
Essa é outra marca do projeto desenvolvido em Lagoa de Velho: o tempo que levou para ser implantado e o tempo que levará para se consolidar e ser ampliado. Nildo Galdino conta que, para poder lançar o projeto, foi cerca de um ano conscientizando a população. Isso foi feito desta maneira porque ele acredita que projetos do tipo só dão certo se houver planejamento.
O lançamento oficial do programa Lixo Zero em Lagoa de Velhos foi dia 30 de março de 2026. A meta estabelecida para o primeiro ano do programa é de alcançar os 50% de reciclagem. Mas os resultados das primeiras semanas mostraram que essa meta deve ser batida facilmente.
Na primeira semana, a prefeitura aferiu que passou dos 50%. A cidade gera uma tonelada de lixo por dia e recolheu, nas primeiras semanas, em torno de 500 quilos diários. Antes do Fabião, esse percentual de coleta de recicláveis era zero.
O programa tem um outro diferencial: fazer com que a população separe o máximo possível o lixo. "Não é só entregar o plástico separado do papel, é o plástico separado do plástico, que é uma coisa importante para não ter unidade de triagem. Nós não queremos unidade de triagem, queremos que a populaęão entregue isso tudo separado", diz, observando que isso é importante para evitar o encarecimento do programa.

O trabalho de separação do lixo é valorizada. "Por exemplo: plástico misto é quatro Fabiões. Mas se a família entregar a tampinha de PVC, que é a tampinha das garrafas, que é só o PVC, ele é 10 Fabiões. Então é melhor entregar o PVC. Se entregar o PET, só o PET separado, a garrafinha de refrigerante lá separado por cor, é oito Fabiões. Agora, se deixar tudo misturado, o plástico, é quatro Fabiões", explica. O motivo disso é para que a associação não tenha o trabalho de fazer triagem.
COMO FUNCIONA
O programa "Lagoa de Velhos Sustentável: lixo zero” é resultado de um investimento de R$ 300 mil. Isso garantiu, inicialmente, que cada família/residência da cidade recebesse um kit com três baldes e dois sacos. O lixo orgânico vai para compostagem. E quem entrega o material recebe seus Fabiões. Quem entrega lixo orgânico, independente do peso, recebe todo dia 1 Fabião. A coleta é diária. A associação passa de casa em casa, pesa, verifica e paga os Fabiões. Hoje, Lagoa de Velhos tem uma população de aproximadamente 2.700 pessoas. Ao todo, a zona urbana do município possui em torno de 750 residências, todas atendidas pelo programa.
A coleta dos materiais recicláveis é feita no período da manhã. Os membros da Associação passam nas casas com uma balança, aferem o peso que cada casa recolheu e fazem o pagamento em Fabiões. Pela parte da tarde, de segunda a sábado, é feita a coleta dos rejeitos e do orgânico. Os moradores despejam os resíduos e permanecem com seus baldes. Os rejeitos vão para o aterro sanitário de Vera Cruz. Desde 2023, Lagoa de Velhos não tem os chamados lixões.
"Nós estamos na transięão ainda de coleta urbana. Mas o município deixará de fazer coleta de lixo em breve. Por quê? Porque tudo vai ser resíduo. Tudo vai ser resíduo. Nós não vamos coletar lixo. Nós vamos zerar o lixo. A gente está na meta de nos próximos três meses, a gente não estar mais coletando lixo", afirma o prefeito.
Fechando o ciclo, como disse o prefeito, existe a loja. Com o Fabião na mão, a população vai à lojinha, onde pode adquirir produtos de higiene pessoal, de limpeza e também doces e chocolates. "Para envolver a crianęada", justifica Nildo Galdino. A ideia de colocar guloseimas do tipo foi para que as crianças ajudassem nesse engajamento das famílias. A loja oferece produtos como água sanitária, sabão em pó, detergente, amaciante e o sabão produzido pela associação, que toca todo o programa, com apoio da prefeitura.
"A gente quer que isso aconteça no Brasil inteiro. Primeiro em Lagoa de Velhos, depois na região e depois espalhando pelo RN", afirma o prefeito.
PRÓXIMO PASSO
Nildo Galdino diz que o próximo passo do programa é fazer o monitoramento para ir refinando e melhorando o sistema. Ele lembra que no início achava que teria problema com relação aos rejeitos e ao lixo orgânico. Mas esse temor não se confirmou. "Esse não tem sido um problema, a gente tem conseguido fazer do rejeito tranquilo. O problema tem sido os reciclados", informa.
Por quê? "Por conta do volume. É muito. A estrutura que nós demos para a Associaęão não tem sido suficiente. Estamos colocando o trator com carroęão", explica. Segundo ele, esse volume acima do esperado resultou xatamente do trabalho de conscientização que a Prefeitura fez visando o programa. Sabendo que teriam alguma recompensa, as pessoas começaram a estocar os recicláveis. E o volume está aumentando porque todos estão vendo que o sistema funciona.
Segundo ele, o comentário na cidade é que a ideia surpreendeu "porque as crianęas já estavam conscientes”. Nós passamos o ano 2025 fazendo gincanas nas escolas, falando da moeda. Eu ia com a moeda na mão já. Porque fazia seis meses que essas moedas estavam impressas. E ela tem todo o sistema de seguranęa, de ultravioleta, de marca d`água", detalha.
Para resolver o problema do volume em definitivo, a Prefeitura está colocando oito carrinhosvagão que serão puxados por moto. "E agora vamos ver se puxa três, porque para ver se dá o vencimento. Vamos aumentar a quantidade de estrutura para fazer o atendimento a 100%. Quando estabilizar, porque ainda não estabilizou, é que vamos ter a noęão de grandeza do volume. Nós achávamos que a demanda estava alta porque o pessoal tinha estocado e nós estamos percebendo uma crescente. Então não é somente porque estocou, é porque mais gente tá entrando no processo", diz.

O prefeito observa um efeito interessante de todo esse trabalho. As pessoas em Lagoa de Velhos juntavam lixo orgânico para servir de alimentação a animais, como porcos e galinhas. Ocorria das pessoas alimentarem os bichos com comida podre. A prefeitura identificou esse problema e está agora disponibilizando os resíduos orgânicos para que os criadores alimentem seus animais, contribuindo para a qualidade da produção de alimentos, caso os bichos sejam destinados ao corte.
O prefeito lembra que para o desenvolvimento de todo o projeto contou com o apoio do SebraeRN, por meio de consultorias para as capacitações e também para as questões jurídicas. "O Sebrae-RN ajudou nessa área de consultoria. Ajudou a implantar tudo isso. Ajudou principalmente na formalização da associação. E no trabalho de capacitação dos associados", ressalta.
No dia em que concedeu entrevista à Revista Municípios em Foco, Nildo Galdino estava exatamente no Sebrae-RN, onde acabara de apresentar o projeto a uma plateia composta por prefeitos e secretários de cidades do RN. Ele contou inclusive que outros municípios demonstraram interesse em ir a Lagoa de Velhos para conhecer e replicar a ideia.
Ele citou os prefeitos de Lajes, Felipe Ferreira de Menezes Araújo; e de Passa e Fica, Flaviano Correia Lisboa. Além desses, citou as cidades de São Tomé, Barcelona e São Paulo do Potengi. "Eu só fiz uma exigência: que eles adotem o Fabião como moeda. Tem que ser o mesmo nome. A gente ainda tá abrindo uma brechinha para Monsenhor Expedito lá em São Paulo Potengi. Se ele quiser vir para Monsenhor Expedito lá, pode. Porque Monsenhor é muito forte e isso significa muito para a gente também lá em Lagoa de Velhos”, comenta. Monsenhor Expedito foi um religioso que sempre defendeu a região, principalmente na questão da água. tanto que hoje, a adutora que abastece a maioria das cidades leva o nome dele.
O próximo passo do Fabião é se tornar uma moeda social amplamente aceita na cidade. Para isso, o prefeito pretende associá-lo à rede de moedas sociais brasileiras e quer também visitar o Banco Palmas no Ceará. Ele acredita que só será possível abrir o uso do Fabião em 2027.
O prefeito comenta ainda que no início queria apenas resolver um problema local, do lixo. Mas agora vê que "está surtindo um efeito tão positivo que a gente espera que seja um marco da administraęão". "Então fico muito feliz, feliz pela cidade, Lagoa de Velhos. Eu digo que é uma cidade pequena, mas é uma das mais bonitas hoje do estado e talvez do Brasil. Já foi uma cidadezinha feia, mas hoje é muito bonita", afirma.
Ele destaca ainda que tudo só está sendo possível porque sua equipe acreditou com ele que a ideia poderia dar certo. E que após essa vontade de fazer, a parte financeira para viabilizar o projeto foi feita a partir de planejamento e aos poucos, priorizando o que queria realizar. O prefeito observa que poderia ter usado os R$ 300 mil para fazer três ruas de R$ 100 mil cada, mas que o projeto visando o Lixo Zero é muito mais relevante. "É a saúde da populaęão. E a saúde são muitas coisas. Não é só o lixo. A cidade limpa também vai influenciar em todas as secretarias. A secretaria que vai ser mais impactada é a de servięos urbanos e a de meio ambiente, porque não vai gastar (com limpeza)", relata.
De acordo com ele, o projeto de Lagoa de Velhos Sustentável foi planejado por mais de um ano e não se resume à coleta de resíduos. "Nós temos também outros eixos, como o de energias renováveis, que nós estamos agora buscando parceria e recursos, financiamento para que todo o sistema de energia dos prédios públicos seja solar", acrescenta. Um outro eixo é o de saneamento básico. Segundo ele, a prefeitura está acabando com as águas servidas expostas nas ruas. E também está em andamento um projeto de ecofossa que vai receber as chamadas águas negras.
Além do programa Lagoa de Velhos Sustentável, o prefeito tem conseguido desenvolver outras obras na cidade. A área de educação é um dos destaques. "Nós comeęamos o ano passado colocando 100% do tempo integral, que eu acho importante a gente estar ocupando as crianęas", explica. Na cidade, além do ensino regular, os estudantes têm dez opções de atividades para fazer e são obrigados a escolher pelo menos duas. As opções incluem futebol, judô, capoeira, karatê, música, futebol de salão, entre outras.
"Em calçamento, estamos atualmente com 12 obras. Estamos investindo bastante no turismo, porque hoje a cidade da Lagoa de Velhos tem muita história. Tem a história do Fabião das Queimadas, tem a história da fundação, tem o museu da cidade, que é o Museu João Anselmo. A cidade está recebendo hoje no turismo uma população que chega no final de semana a duplicar", destaca.
PERFIL DIFERENCIADO
Quem ouve o prefeito Nildo Galdino vê claramente uma diferença com relação a outros prefeitos do RN. Em nenhum momento da entrevista ele dá destaque a reclamações referentes a recursos, por exemplo. "Eu não gosto dessa parte, das reclamações, eu gosto da parte boa. Por isso que eu não falei. A gente tem limitaęão de recursos, dificuldade para pagar fornecedores e precisa de mais recursos para investir", diz. Mas afirma que para contrapor esses desafios há um caminho possível.
"O segredo é planejamento. Planejamento. A gente tem que planejar tudo o que vai fazer, porque se você der um passo maior que a perna, você se perde. E nós temos planejado, apesar do recurso limitado", afirma.
