"EU ME CONSIDERO UM SOBREVIVENTE"
O ex-deputado, ex-ministro e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, chegou a ser um dos nomes mais influentes da política no Brasil. Foram 11 eleições de deputado federal, número que o torna recordista de mandatos do tipo, igual a Ulysses Guimarães. Em junho de 2017, ele foi preso na operação Manus. Em maio de 2018, quase um ano depois, conseguiu a liberdade. Em 2022 tentou voltar à Câmara. Pela primeira vez não conseguiu. Hoje afastado da política, ele está escrevendo um livro sobre tudo o que viu e viveu na política brasileira. Recentemente, concluiu um tratamento de saúde em São Paulo; e comemorou nas redes sociais.
A experiência do filho do ex-governador e ex-ministro Aluízio Alves faz dele um analista e observador político minucioso. E foi pensando nisso que a revista Municípios em Foco resolveu procurá-lo. E ouvi-lo. Nessa entrevista, Henrique Alves faz uma retrospectiva de fatos envolvendo sua biografia, conta histórias, analisa a Câmara dos Deputados de hoje em dia, critica a postura de parlamentares e analisa ainda as eleições para a presidência e para o governo do RN. "Nunca falei tanto", brincou. Ele diz que não sente saudades da Câmara e que, fora do poder, salvou-se na filosofia, levado pela esposa, a jornalista Laurita Arruda. "A filosofia me ensinou a ver a vida diferente, a cuidar das pessoas, a me sentir igual, porque dessa vida, nada levaremos". Do Henrique que orbitou as mais altas esferas do poder no Brasil para o Henrique que hoje diz estar somente na torcida, assistindo a tudo, apenas uma coisa permanece inalterada, incurável: a paixão pelo Vasco da Gama.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
O senhor está trabalhando num livro de memórias?
Eu comecei a repassar minha história e vi que têm episódios muito emocionantes, muito importantes. Afinal entrei na política por um apelo assim muito forte do meu pai [Aluízio Alves], cassado pela Ditadura, por Costa e Silva. Eu tinha 21 anos e eu fazia o segundo ano na faculdade de direito do Rio de Janeiro. Conhecia muito pouco do Rio Grande do Norte, poucas cidades e tive que enfrentar essa luta. Meu pai pegou um papel almaço duplo e botou em cada linha todas as cidades que eu iria percorrer. E cada uma delas, a sua chefia política, aqueles que viviam com ele no governo lá em casa e pediu que eu fosse procurar um por um para pedir apoio para a minha eleição, para manter a esperança viva. A partir daí foram muitos anos, muitas lutas, muitas alegrias, muitas desilusões, mas sobretudo muita vontade. E eu cheguei onde cheguei, por uma grande lição que ele me deu. Ele disse: "Meu filho, faça sua luta sempre, não se esqueça, sem ódio e sem medo, porque o ódio escraviza, o medo acovarda".
Tem algum episódio em especial dessa sua trajetória política?
Eu fui o parlamentar com mais mandatos na história, igual a Ulysses Guimarães. Foram 44 anos. Eu me elegi líder do MDB e eu me lembro quando me chamaram, o partido estava numa crise. São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, todo mundo queria ser líder de bancada. No final, eram 82 deputados do MDB e não chegavam a um acordo. Aí me chamaram lá, a liderança de São Paulo, Rio, Minas e Bahia e disseram: "Olha, Henrique, você é muito querido aqui, seu pai, toda uma história. Como o ano que vem é um ano eleitoral, não vai ter nada importante para votar porque é uma eleição de prefeitos, vereadores; e os deputados vão estar todos nos seus estados. Nós queríamos que você, linguagem popular, quebrasse um galho e ficasse líder por esse ano. E no final do ano, os deputados voltando, você convoca a bancada e elegemos um novo líder. Eu disse: "Tá. Aceito". E aí eu fui ser líder passageiro, assim. Mas o destino me pregou uma peça tão boa e de repente eu fiquei líder. Um ano, 2 anos, 3 anos, 4 anos, 5 anos, 6 anos. Por aclamação. E me orgulhava muito. Eu tinha aprendido com meu pai a lidar com os políticos, a compreendê-los. Outra frase dele: "Meu filho, quando você acreditar numa causa que você acredita, lute, lute, lute, lute. Mas se você não conseguir convencer, permita-se ser convencido. Porque você pode não ganhar aquela, mas você vai ganhar o respeito".
"Toca o telefone. Era o então prefeito Benes (Leocádio), de Lajes. 'Lula lançou agora o Minha Casa, Minha Vida; e a Dilma acaba de dizer que os prefeitos das cidades pequenas agradecessem ao líder Henrique Alves'"
Como é que o senhor explica um deputado de um estado pequeno como o RN ter conseguido se eleger presidente da Câmara?
E você imagina: fui presidente por três dias. Eu assumi a presidência três vezes e aqui entre nós: a Dilma viajava e meu querido Michel Temer me chamava. "Henrique, a Dilma está viajando, vai passar 10 dias fora. Eu vou aqui até Argentina, eu vou aqui até à Venezuela, passo dois, três dias e volto e você assume a presidência da República, uma homenagem ao seu estado". E assim aconteceu. Foi muita obstinação. A importância de ser líder. Eu dizia sim, 82 deputados diziam sim. Eu dizia não, 82 deputados diziam não. Então, me deu muita força de articulação, de embates, de disputas e de respeito ao parlamento. Até que me atrevi a disputar a presidência. 513 deputados, quatro candidatos na disputa. Aí eu me lembrei de outra lição que eu guardava dentro de mim: eu vou tentar vencer no primeiro turno. Eu percorri esse Brasil e reuni todas as bancadas, uma por uma, argumentei, enfrentei posições contrárias. Quase na véspera dessa história, Aécio Neves era muito amigo do saudoso Eduardo Campos. E eles viviam juntos em Brasília, eram os dois bonitões de Brasília. Eram os dois para cima e para baixo. Quando eu vejo nos jornais, Aécio Neves foi a Recife, quase véspera de eleição, porque tinha um candidato a presidente em Minas Gerais. Eu digo: ‘pronto, vai me tomar os 34 votos à época do PSB’. Fiquei louco. O que eu faço? Vou bater lá em Recife. Cheguei lá, sem avisar a ele, fui direto no palácio, me identifiquei, me deram acesso. Quando ele me viu, com aquela sua bondade característica de homem do bem, querido líder, até me emociona. Eu disse ao governador: "desculpe incomodá-lo, o senhor sabe que estou enfrentando a luta para ser presidente da Câmara". "Eu sei, eu estou acompanhando as suas andanças". E aí eu fui fatal: "Eu soube que Aécio, seu amigo, seu companheiro, esteve aqui há alguns dias para pedir o voto para o deputado de Minas disputar lá comigo". Ele disse:"Isso mesmo. Ele disse nessa cadeira que você está. E agora eu vou dizer a você o que eu disse a Aécio: ‘me desculpe, mas o melhor para o meu Nordeste é o líder Henrique Alves’". Aécio se levantou danado da vida. E eu ganharia, nas minhas contas, por 33 votos. Ao final, falha aqui, falha acolá, ganhei com 18 votos de maioria no primeiro turno.

Quais foram os momentos mais desafiadores que o senhor viveu nesse período?
Vou contar uma que talvez tenha sido o momento mais importante da minha vida. Chega à Câmara o projeto do Minha Casa e Minha Vida. Presidente Lula. Aí eu fui a Michel (Temer), que era o presidente. "Michel, eu queria ser relator. Esse projeto vai marcar a história do Brasil. Me dê esse direito". Ele: "Henrique, não posso. A bancada de São Paulo, do Rio, da Bahia, de Minas, todo dia vem aqui pedir para relatar". "Mas Michel". "Não posso, Henrique, não posso". Tá bom do fazer algumas mudanças". Aí ela, com aquele seu jeito característico, dá um pá na mesa. "Não pode. Lula quer lançar semana que vem". Eu digo: "Ministra, eu vou lhe dar só um exemplo: o projeto atende municípios acima de 10.000 habitantes, R$ 10 bilhões de reais. Deixa eu lhe dar um exemplo. No meu estado, à época, apenas três cidades, das 167 serão atendidas. Três apenas. Que é que vai acontecer? As pessoas pobres, sofridas, que não têm a sua casa para morar, vão correr para as cidades médias e grandes, essas três, e aí vai piorar muito mais". "Mas isso é para atender São Paulo, Rio, os viadutos, as pontes, as pessoas morando debaixo delas", ela disse. "Sim, ministra, mas eu tenho que ver o meu estado, os municípios pequenos". "Tá bom. Aprova este e logo depois eu mando outro projeto para as cidades pequenas". Eu disse: "ministra, com a minha experiência… Depois? Isso é daqui a dois anos, eu vou mudar agora". "Não vai!". Eu disse: vou. Ela bateu na mesa, saiu, me deixou falando sozinho. Fui pra Câmara, comecei a trabalhar, bancada por bancada. Olha que depois de tantos anos foi o primeiro projeto que a Câmara aprovou à unanimidade. Eu tirei dos R$ 10 bilhões, R$ 1 bilhão para os municípios abaixo de 5 mil habitantes. Aprovei e corri para o Senado. Renan (Calheiros) era o presidente. "Oi, como vai, meu presidente? Tudo bem, Renan? Aprovei agora minha casa e minha vida". "Que coisa boa. Quando vem para o Senado?" ‘Está aqui debaixo do meu braço". "Deixa aqui. Daqui a uns dias eu boto para votar". Digo: "Meu amigo, tira o microfone aí para ninguém ouvir. Não demore, não. Para você não passar o que eu passei". Aí contei a história da ministra Dilma. "Henrique, foi assim? "Foi". "Deixa aqui, eu boto para votar amanhã". Votou, aprovou por unanimidade. Eu fui a uma audiência em Washington com alguns deputados, audiência com parlamentares americanos. Aí toca o telefone. Era o então prefeito Benes (Leocádio), de Lajes. Achei que era alguma coisa grave. "Diga Benes. Tô na reunião aqui com deputados republicanos". "Não, liguei só para dizer que Lula lançou agora o Minha Casa, Minha Vida; e antes dele falou a Dilma. E ela acaba de dizer que os prefeitos das cidades pequenas
agradecessem ao líder Henrique Alves (se emociona).
"A Câmara hoje perdeu o respeito, não se respeita mais. O que vale naquela casa é a tal da emenda secreta. É o que vale. Ela que faz o jogo dos interesses"
Qual foi o período mais difícil que o senhor viveu na sua trajetória política? Foi a questão da prisão?
A questão da prisão. Pelo absurdo. E vou aqui relatar. Ia ser julgado no Tribunal Superior Eleitoral o recurso de Aécio (Neves) e Dilma (Rousseff) para validar a eleição deles e invalidar a de Temer. Eram cinco votos. Às 17 horas a votação. Trabalhamos. Eu cuidei de um amigo que era ministro aqui do Ceará. Fui lá, expliquei a ele, ministro Napoleão, reservadamente, expliquei a ele, fiquei confiante e Michel, Moreira Franco e os outros conseguiram mais dois. Nós temos três votos contra dois e Michel continuaria presidente. Quando acontece no início da manhã. A polícia vem aqui. O procurador do Ministério Público Federal aqui manda a polícia fazer uma busca. 6 horas da manhã. 13 policiais aqui em casa. Como se fosse Fernandinho Beira-Mar. Não acharam nada. Aí pediram desculpas. Mas eu percebi um dos policiais, ele ia na varanda e olhava se tinha alguém lá embaixo. Eu estranhei, fui ver na frente, não tinha ninguém. Quando eu desconfiei, fui ver de lado, cheio de carro da imprensa. Antes de ter dado a voz de prisão, já tinha imprensa aqui. A imprensa toda aqui porque já sabia. Foi um procurador que era da turma do Rodrigo Janot (ex-procurador-geral da República). Ele tinha ódio de Michel Temer. Porque ele (Janot) queria que Michel renovasse o mandato dele. E eu tava na casa de Michel um dia. Ele disse: Henrique, dê uma saidinha aí que está vindo aí Rodrigo Janot e eu quero ter uma conversa com ele". Eu saí, fiquei lá fora, ele me chamou de novo. "Era o que eu pensava. Janot queria ser reconduzido, eu disse a ele que não podia". Então esse homem ficou com ódio de Michel e seus amigos. E me pegou aqui, fez isso: prisão preventiva, a mais longa do Brasil. Fiquei lá sem fazer nada num quarto improvisado. Um banheiro só com água fria. Eu fiquei lá. Visitas, final de semana e eu fiquei lá. Aí acontece o que eu não esperava ou talvez esperasse acontecer. Num dia de visita íntima. Era uma quarta-feira. A nossa mulher podia vir 8h às 16h. Eu tô lá com Laurita. Aí bate a porta: "Deputado, tem um senhor aí, advogado, quer falar com o senhor". Era o nosso advogado do MDB, frequentava aqui em casa, pessoa querida. "Henrique, eu quero falar com você, é uma grande notícia". Era o nosso amigo. Fui atendê-lo. Ele me deu um abraço, se emocionou, chorou apertado mesmo. Eu também. Aí ele disse: "Você não vai acreditar a notícia que eu tenho para dar. Você pode ficar aqui 3, 4 anos. Mas a notícia que eu vou lhe dar: daqui a 30 dias você está em casa". Eu digo: "Mas como? Quem eu trouxe aqui é que vai lhe dizer, ele está aqui no McDonald's na esquina da Alexandrino". Aí era o procurador Rodrigo Telles, que toda quarta-feira nas audiências descia o cacete na gente e a gente se defendia. Eu digo: "Rodrigo, está aí?" "Eu trouxe ele, vou levá-lo de volta. Mas se você concordar — aí se emocionou — eu vou trazer ele aqui à noite às 22h. Vou avisar à guarita, vou mostrar onde é seu quarto e sem caneta, sem papel, sem celular, sem nada. Só você e ele vão conversar e ao final ele vai dizer: em 30 dias você estará solto." Eu digo: "Meu Deus, que será isso?" Eu acho que meu pai inseriu-se em mim, me deu aquela coragem, peguei no braço dele e disse: "Me desculpe, eu não vou recebê-lo". Me levantei e fui embora. Ele ainda tinha me dito: "Ele só queria saber das conversas suas com Michel, com Jucá, com Moreira Franco, já que todo final da tarde vocês iam bater papo, trocar ideias". Eu disse não. Ele achou pouco, veio aqui em casa no dia seguinte, pegou minha mulher, era só pele e osso. E foi para cima dela: "Você quer ter seu marido daqui a um mês ou daqui a 3, 4 anos?" E disse que ela também seria processada. Minha mulher chorou muito. Correu para a casa do pai dela. E o pai dela, Cassiano (Arruda), que descia o pau em mim no Diário de Natal, botou o dedo na cara dela e disse: "Você quer matar seu marido?" Ela na mesma hora ligou para o nosso advogado, Kennedy Diógenes, e disse: "Assunto encerrado". Depois, por unanimidade, em Brasília, me concederam a liberdade. Ainda domiciliar. Olha que história. Eu me considero um sobrevivente.

O senhor participou do mais alto círculo de poder no Brasil. Como o senhor avalia a Câmara de hoje comparada à Câmara da época que foi presidente?
É até uma vergonha comparar. Até me atinge. A Câmara hoje perdeu o respeito, não se respeita mais. O que vale naquela casa é a tal da emenda secreta. É o que vale. Ela que faz o jogo dos interesses. E mais: se passou a votar à distância, pelo celular, você não comparece mais ao plenário da Câmara. Aqueles debates que aconteciam… Zero, não acontece mais. No máximo juntam 10, 20 deputados para tirar uma foto e colocar nas redes. Cadê o respeito ao cidadão brasileiro? Aquela é a casa do povo brasileiro. Eu aprendi esses valores sabe com quem? Com Ulysses Guimarães. Ele me pegava e dizia:"Vai, menino". Menino era eu. Me dava a mão e quando ele ia, eu ia atrás só ouvindo, não falava nada, mas ouvia tudo. Ele foi, na política que eu vivi, o meu professor e o outro, bem maior, foi meu pai, em todos os momentos.
O senhor sente saudade da Câmara? De atuar politicamente?
Não [nesse momento, a esposa brinca: "Olhe…"]. Laurita aqui: ‘olhe olhe'. Eu vou a Brasília, um ministério ou outro, vou cuidar de problemas de meu estado, pedido de prefeitos, com Álvaro Dias, prefeito de Natal, algumas vezes, mas não chego nem perto da Câmara. Uma vez Flávio Azevedo, suplente de Rogério Marinho, assumiu, me convidou. Ele insistiu. Eu fui. Quando acabou a sessão, eu digo, vou embora. Aí encontrei alguns deputados. "Henrique, vamos ali na Câmara". Vou não. Repórteres: "Henrique, uma palavrinha". Não tenho o que falar. Saí quase correndo e eu não quis ver aquela minha Câmara dos Deputados, onde eu presidi a Comissão de Justiça, de Economia, de Turismo, líder, segundo secretário na mesa.... Eu não queria ver aquilo que eu vivi no que se transformou hoje.
Como é que o senhor avalia hoje todo esse cenário político, incluindo essa questão da eleição presidencial?
Tive a tristeza de ver o candidato Romeu Zema, entrevistado, negar que houve golpe porque não teve tiro. E ontem para mim a maior surpresa ainda, que eu fui colega dele 20 anos, no parlamento: Ronaldo Caiado. Defendeu anistia ampla e irrestrita. "Aquilo não foi golpe. Aquilo foi insubordinação”. E ficava enrolando. Meu Deus do céu. Temos o brigadeiro, ministro do exército, dando depoimentos, escrevendo livros. Eles alegam que não foi golpe porque não venceram. Se tivessem vencido, nós não estaríamos hoje na democracia do Brasil. E aí eu sei que hoje com alguns desgastes, mas eu faço justiça: quem viveu aqueles dias, se não fosse o ministro Alexandre de Moraes, nós não teríamos sobrevivido à ditadura, que voltaria — dramática, assassina, criminosa — ao nosso Brasil.
"Eu tenho em Lula — aí é convicção minha — um conceito tão humano que eu acho que esse homem, três vezes presidente da República, com todos os seus defeitos, com tudo que errou e com que acertou, vai se eleger pela quarta vez"
Como é que o senhor avalia a atual eleição presidencial? Levando em consideração, por exemplo, a declaração recente de Gilberto Kassab que é vice de Caiado, mas disse que ninguém vence Lula?
Meu amigo Kassab, ele foi o melhor exemplo. Ele apoia Caiado, se oferece para ser vice, e nós sabemos que no fundo ele não apoia nem vota em Caiado. Nos estados brasileiros, o seu partido, a grande maioria apoia Lula e ele não faz sequer um senão. De Lula, eu vou aqui lhe dar um depoimento surpresa. Eu me candidatei a governador em 2014. E tinha o compromisso dele de não vir aqui. Eu fui líder do governo dele. E tinha aquela pressão toda, porque eu não tinha apoiado Fátima do PT para o Senado. Eu tinha apoiado Vilma. Talvez tenha sido aí um erro de avaliação minha, porque eu tinha ligação próxima com Lula. Tudo bem. Mas não vinha aqui. Primeiro turno, ganhei a eleição. Aí vem o segundo turno. Quando para minha surpresa, eu ligo o programa eleitoral, tá Lula batendo papo com Robinson. Ele não sabia nem quem era, não sabia nem o nome. E Robinson, acho que nunca tinha visto Lula também e dizendo:"Lula, eu vou ser um governador como o senhor foi presidente”. Aí Lula: "Naturalmente você terá minha ajuda no palácio, governador Robson”. Aí, meu amigo no interior, com a força dele, eu perdi a eleição do segundo turno. Mas eu tenho em Lula — aí é convicção minha — um conceito tão humano que eu acho que esse homem, três vezes presidente da República, com todos os seus defeitos, com tudo que errou e com que acertou, vai se eleger pela quarta vez. Esse homem tem na terra uma missão: cuidar dos pobres. Cuidar dos pobres. Podem falar o que quiser. Me listem os programas sociais. A sua profundidade pro estudante, para dona de casa, pro trabalhador, pro assalariado, pro aposentado, homem sem casa, tudo era Lula. Eu acho que ele tem esse compromisso. A Faria Lima reclama, é natural. Governo não foi feito para os ricos, governo foi feito para os pobres. Por isso, essa é minha admiração por Lula e vou gravar o 13 de novo.
O senhor chegou a conversar com o Lula após a eleição?
Não. Teve um momento, numa das últimas vezes que ele esteve aqui, foi na eleição de 2022, Renan Calheiros me liga de Alagoas. "Quero um favor seu". Digo "pois não”. "Só falta o Rio Grande do Norte para Lula fechar o apoio em todo Nordeste brasileiro. O MDB do Ceará, Paraíba, Piauí, Maranhão, Sergipe, Alagoas, mas só falta o Rio Grande do Norte pra gente festejar Lula primeiro turno, o Nordeste vota nele”. "Sim, eu sei. E daí?” "E daí que eu queria que você ajudasse a trazer Lula para o MDB”. Eu disse:"Renan, me desculpe, eu não vou conseguir". "Por que Henrique?” "Renan, o MDB tem uma candidata séria , honrada. Eu voto nela”. Lula veio aqui, se reuniu com Garibaldi, meu líder maior, o melhor de todos nós, e com o filho dele, deputado Walter; e exigiram de Fátima a vice governadoria para Walter Alves. Aí Lula disse a Fátima: "eu preciso da vice para o MDB, porque assim o MDB vai me apoiar”. Aí Fátima, que não queria, já tinha o seu candidato, ia fazer o quê diante de Lula? Bateu o martelo, Walter vice-governador e apoiaram Lula presidente, menos eu.
Que avaliação o senhor faz da eleição local, levando em consideração essas pesquisas mais recentes, que mostram o cenário mais apertado?
Eu manifesto aqui, não é a TV Cabugi, até porque é a Rede Globo, eles só ouviram 800 pessoas. E já saíram outras, as pesquisas geralmente ouvem 1.200 pessoas. Acho que ela foi frágil na sua análise. Acho que Cadu, até porque merece, é um homem de bem, é um homem competente, que eu conheço, tá sendo um bom candidato, mas não acredito que ele tenha chegado onde chegou. Álvaro Dias, que foi prefeito, eu aliado dele, quantas vezes, em Brasília, batendo as portas do governo Lula. E é o homem bravo, de caráter, de firmeza, mas também não acredito nessa sua pontuação. E Alysson, que vinha batendo 35, 38 em pesquisas internas, agora recente, chega a 40.5. De repente despenca. Por quê? Porque andou 167 municípios? Porque é o único a ter um programa escrito de governo, por discutir em cada município; pelo grande prefeito que ele foi, pela sua juventude, pelo seu caráter? Eu acho que ele mantém uma boa dianteira. Eleição é eleição. Vamos esperar o dia chegar.
O que os novos políticos que serão eleitos precisam fazer para ajudar mais os municípios do Rio Grande do Norte?
Primeiro, um detalhe grave que eu digo aqui: antigamente a emenda parlamentar, a gente tinha tanto orgulho de pegar essa emenda, trazer o papel, reunir o prefeito, juntar a gente e entregar a emenda para realizar a obra, detalhada pelo prefeito para o município. Hoje os deputados mandam as emendas, muitas vezes — não são todos — mas essa moda pegou em larga escala: não sabem nem a obra, nem o que o prefeito irá fazer. Transparência mínima. Cada deputado federal tem R$ 35 milhões de emendas no seu total. Senador tem R$ 50 e tantos milhões de emendas. Dá um total de quase 500 milhões. Quando eu era presidente, criei a impositiva, era R$ 300 e só do deputado. Transparência, a obra e a entrega. Hoje transformaram as estaduais, que eu até entendo que você reúne as universidades, os hospitais com a bancada e define obras importantes, mas o pior e grave foram as emendas de comissões. Cada comissão tem mais de 40 deputados. Deputado encaminha à presidência, nem se identifica e tantos milhões para município tal e estado tal. Ninguém sabe como vem, como chega, para que será. E tá aí o desgaste do poder Legislativo. E mais, numa época de campanha como essa, nós fazíamos encontros regionais. O candidato a governador, a senador, a deputado, nós reuníamos para ir a regiões tal qual aquela, aquela outra e reunia seus prefeitos, vereadores, comunidades e passávamos o dia — eles nos davam o almoço — discutindo os problemas, as carências, as necessidades, os sonhos. Depois fazíamos um relatório para depois servir de orientação, de guia para aquilo que devemos pleitear dos governos estaduais e do governo federal. Quando você já ia ao ministério, você ia com força aqui. Quando você ia ao presidente da República, você não ia só como você vai hoje. Reunia a bancada. Uma coisa é um deputado ir ao ministro. Outra coisa é você ir com oito deputados ao presidente, ao ministro. Então, falta aos municípios essa capacidade de mobilização, porque nós sabemos que tudo começa nas cidades ou no campo. Tudo começa nos municípios brasileiros.


O senhor está afastado da política. Como é a vida agora fora do poder? O senhor tem alguma mágoa? Lida bem com isso? Todo mundo fala que o senhor durante o tempo que foi deputado, ajudou muita gente. Como é hoje?
Esse espírito mora dentro de mim. Até a minha mulher diz: "Você gosta de atender todo mundo, falar com todo mundo, as pessoas me procuram". Eu comecei a fazer filosofia. Na Nova Acrópole. Minha mulher começou, chegava aqui toda feliz. Eu disse: "O que é que essa mulher vem tão feliz da filosofia?” Ela disse: "Vamos comigo". Estou lá há seis anos. Não saí mais. Ela me ensinou a ver a vida diferente, a cuidar das pessoas, a me sentir igual, porque dessa vida, nada levaremos. Mas sentiremos sempre saudade de quem fomos e deixaremos um exemplo para os nossos filhos, para os nossos netos. Então, daqui acompanho a política. Vejo tudo. Aqui e acolá dou uma opinião, mas sou um mero espectador na torcida. E eu torço pelo Vasco [é a coisa mais importante da vida dele, comenta a esposa].
