“NO RIO GRANDE DO NORTE FOI DESCOBERTO O BRASIL!”
O engenheiro, escritor e pesquisador Manoel Oliveira de Cavalcanti Neto leu todos os livros de Lenine Pinto. E, após isso, achou que havia fundamento na tese dele de que o “descobrimento” do Brasil foi no Rio Grande do Norte e não na Bahia. Sua pesquisa resultou em livro no qual ele atualiza a tese
Antes dos artigos científicos do professor Carlos Chesman e Cláudio Furtado e depois dos livros de Lenine Pinto, um engenheiro começou, por conta própria, a investigar a tese de que o “achamento” do Brasil teria ocorrido pelo Rio Grande do Norte.
Manoel Cavalcanti Neto começou suas navegações sobre o tema em 2016 e até hoje se debruça sobre os documentos que contam a história do Brasil. Nos seus estudos, ele conseguiu reforçar a tese levantada por Lenine e apontou que, na realidade, o “Monte Pascoal” não seria o Pico do Cabugi, mas a Serra Verde, no município de João Câmara.
Na entrevista abaixo, o escritor explica como construiu a pesquisa que resultou no livro “Brasil 1500, a verdade: descobrimento do Brasil no Rio Grande do Norte”, lançado em 2024. E fala também sobre a Era dos Descobrimentos e as Grandes Navegações.

Como o senhor começou sua pesquisa?
Logo após o lançamento do livro “O Mando do Mar”, em novembro de 2015, eu comecei a pesquisar e passei a ter contato com Lenine Pinto. Até então, não tinha pesquisado diretamente: só tinha ouvido falar e lido os dois primeiros livros dele. Mas “O Mando do Mar” é muito mais completo que os dois primeiros.
Logicamente, os dois primeiros tiveram um impacto grande no lançamento da tese, que foi muito badalada em torno de 1998 e 2000. Em 2016, fui a Lisboa. Não fui propriamente para pesquisar. Fui para ver, orientar e me situar sobre como iria conduzir a pesquisa. E nada melhor do que ir à Torre do Tombo, o Arquivo Nacional de Portugal.
E por que resolveu fazer a pesquisa? Se sentiu desafiado?
Não. Porque eu achei fundamento na história. Encontrei esses fundamentos e, com todo o respeito a Lenine, verifiquei algumas lacunas na tese dele. Fiquei instigado.
Lenine defendia que o Monte Pascoal era o Pico do Cabugi. Achei estranho e comecei a me debruçar sobre a Carta de Caminha. E me debruço até hoje. De 2016 a 2025, nove anos depois, vou descobrindo novos elementos que reforçam a tese de Lenine.
A Carta de Caminha é uma obra fenomenal. Antes de ir a Portugal, tive contato com Lenine e ele me ofereceu um exemplar de “O Mando do Mar”. Eu já tinha comprado o livro no lançamento, novinho. Levei-o comigo e, quando cheguei à Torre do Tombo, fiz a doação do livro para o Arquivo Nacional de Portugal.
Por uma questão de praxe, o doador precisa fazer uma dedicatória. Quando voltei, Lenine me perguntou como tinha sido a viagem. E eu disse: “Foi muito boa, e ‘O Mando do Mar’ está arquivado na Torre do Tombo”. Isso o emocionou.
Como foi o início da pesquisa?
Desde o princípio, eu parti de uma premissa: a história é feita pelos vencedores, pela classe dominante. É lógico. E decidi ter uma fonte primária: a carta de Pero Vaz de Caminha.
A carta é linda. Entrei com um olhar despretensioso e comecei a perceber que ela tinha muitos elementos, muitos dados que normalmente não são considerados, como profundidades, distâncias, ventos e correntes. Comecei a sentir isso e a notar certa nuance.
Uma das coisas que notei — e depois confirmei — é que as traduções do português arcaico para o português moderno têm muitos erros.
Como assim? Exemplifique por favor?
Em primeiro lugar, as traduções estão cheias de pontos, vírgulas e parágrafos que não existem no original. A carta é o único documento realmente comprovado e reconhecido por todos, não questionado, e que foi feito no palco dos acontecimentos.
Comecei a pesquisar e cheguei a alguns resultados. Achei estranhos certos trechos da Carta de Caminha. Um deles diz que eles chegaram a um determinado ponto, fundearam a seis léguas da costa e ali fizeram a primeira batimetria: 25 braças. Na segunda batimetria, 19. Fundearam novamente.
Nesse lugar — não está precisamente dito onde, mas são pontos muito próximos — avistaram um monte muito alto e redondo. Meu primeiro questionamento foi: o que era um monte muito alto e redondo para aquele cidadão letrado, português, com cerca de 50 anos, em 1500?
Fui procurar o significado de “monte”. A única elevação que tem definição clara de altura é a montanha. Montanha é toda elevação com 300 ou mais metros de altitude — altitude é a altura em relação ao nível do mar.
Por exemplo: o Cabugi tem aproximadamente 580 metros de altitude, mas o pico em relação ao mar tem apenas cerca de 360 metros de proeminência. A proeminência é o que efetivamente se vê.
Isso me chamou a atenção: o que seria um monte muito alto e redondo para o escrivão da armada?
Fui estudar o relevo da cidade do Porto. Lá existem duas elevações principais: o Monte dos Congregados, com altitude de 133 metros e proeminência de apenas 33 metros — algo equivalente a um edifício de alguns andares. E, na margem direita do Rio Douro, já em Vila Nova de Gaia, há a Serra do Pilar, com 92 metros de altitude e praticamente a mesma proeminência, por estar à margem do rio.
Então, o Cabugi, com toda razão, seria considerado um monte muito alto e redondo para aquele português do século XV, natural da cidade do Porto.
Na carta, Caminha diz que eles chegaram a um determinado ponto, fundearam a seis léguas da praia, pernoitaram e, na manhã seguinte, navegaram em direção à terra. A terra, logicamente, orientados pela elevação. E fundearam a meia légua, com aproximadamente 19 metros de profundidade.
A partir disso, comecei a fazer as batimetrias na área.
Usando que ferramenta?
Usei o Google Earth. Encontrei as duas primeiras batimetrias. Tracei linhas com profundidades de aproximadamente 42 metros e 55 metros. Mas não conseguia encontrar a batimetria de nove braças.
Antes disso, Caminha afirma que eles navegaram obra de dez léguas contra o norte, chegaram a determinado ponto e ali fundearam. O que é “contra o norte”? É em direção ao norte.
Eu creio que Lenine considerou que “contra o norte” seria em direção ao sul. Quando cheguei à Praia do Marco e “desci” essas dez léguas em direção ao sul, cheguei à altura de Rio do Fogo, Zumbi. A minha diferença com Chesman não chega a três quilômetros.

“A tese é muito difícil de ser oficialmente reconhecida porque — como eu chamo — os portosegurenses são verdadeiros devotos.
A resistência às mudanças é muito grande”
Mas perfeita. Lá tem o Museu da Construção Naval.
E trouxe muito mais elementos.
Um amigo meu, Edgar Ramalho, descobriu uma coisa no livro de Damião de Góes, “Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel”.
Quem foi Damião de Góes? Um famoso escritor e historiador quinhentista que foi morar na corte com nove anos de idade. Cresceu junto com o infante Dom João, que sucedeu a Dom Manuel e tornou-se o rei Dom João III, tendo um reinado muito longo.
Damião foi escritor e, por mais de 20 anos, foi guarda-mor da Torre do Tombo. Ou seja, tinha acesso a todos os documentos.
E ele diz, em determinado trecho, que Cabral tomou posse da terra com um padrão de pedra, o marco.
Só existem dois marcos de posse do Brasil: o Marco de Touros e o Marco de Cananéia (SP).
O de Porto Seguro é um marco comemorativo, e a história não nega isso, não. Foi chantado em 1534, por Pero do Campo Tourinho, donatário da capitania.
Onde mais o senhor procurou evidências?
Eu fui ao Museu de Marinha. E vejo lá o vídeo “Provável rota de Vasco da Gama”, pelo almirante Gago Coutinho. Eu olho aquilo, filmei, achei impressionante que é justamente a grande volta ao mar se aproximando do Brasil.
Dois dias depois, voltei para conversar com o diretor-geral do museu. Ele esteve três vezes no Brasil, na carreira dele, em veleiros. E o que acontece? Aqui está a África, Cabo Verde, aqui está o Brasil e o Equador. Você tem que ir em direção tal e começar a fazer a volta. Mas você tem de cruzar o Equador em uma determinada longitude, senão as correntes e os ventos o levam ao Maranhão.
E como é que Porto Seguro entrou nessa história?
Porto Seguro é aproximadamente metade do caminho entre os Marcos de Touros e o de Cananéia, únicos padrões de posse existentes no Brasil. Eles estão distantes aproximadamente 2.000 milhas, o que é comprovado pelo Planisfério de Cantino, de 1502.
Autores quinhentistas afirmam que Cabral fez uma longa navegação na Terra da Santa Cruz, uma navegação de cabotagem, ou seja, sempre com a terra à vista.
Qual é o futuro dessa tese que o senhor defende?
A tese é muito difícil de ser oficialmente reconhecida porque — como eu chamo — os portosegurenses são verdadeiros devotos. A resistência às mudanças é muito grande.
Você tem conhecimento de algum processo no mundo que ocorreu uma revisão histórica tão profunda quanto essa?
Até hoje não se sabe exatamente onde Colombo chegou. Até hoje. Se foi nas Bahamas, se foi em Santo Domingo. Até hoje o americano também não sabe quando aportaram os primeiros colonizadores, exatamente.
Nós temos a sorte de termos evidências, nós temos registros. A ciência hoje nos auxilia por isso. Nós temos a sorte de uma descrição de autores como Caminha, que detalhou certas coisas, como Damião de Góes, como João de Barros, como Fernão Lopes Castanheda, como Duarte Pacheco Pereira, que registraram isso.
“O turismo bombaria. Porto Seguro hoje explora o turismo histórico e o que chamam de Costa do Descobrimento movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano”
Isso não se perdeu. Isso nos dá elementos para chegarmos a conclusões concretas. Para fechar: a declaração de João Lúcio, capitão da caravela Boa Esperança, com dois mastros, construída para as comemorações do 5º centenário da ultrapassagem do Cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias, afirma que fez oito travessias no Atlântico e três vezes a rota de Cabral.
E diz que é impossível ter chegado tão rápido, naquela época do ano, à Bahia.
“Contudo, para mim, São Roque continua a ser um dos pontos mais prováveis. Lamento que minha viagem, tão programada, tenha sido forçada, contra a minha vontade, a utilizar motor para atender às datas e eventos.”
Ele, quando chegou, viu que não ia chegar e ligou o motor para alcançar Porto Seguro. Até hoje, se você estiver em Zumbi, você vê os navios vindo do Leste. Por quê? Porque a corrente é lenta, em torno de 2 milhas por hora. O que significa isso? Economia de energia, porque se está navegando numa direção favorável.
E por que o senhor considera a tese difícil?
As sete, oito últimas gerações estudaram pela versão conhecida da história. Poucos se aprofundaram nessa outra tese. Então, a resistência à mudança é grande. Existem leis. Existem decisões de instituições históricas: Instituto Histórico Brasileiro, Instituto Histórico do Rio Grande do Norte, Instituto Histórico da Bahia, institutos históricos por aí afora. Todos teriam que se pronunciar.
O que é que o Rio Grande do Norte ganharia se essa tese se estabelecesse, na sua avaliação?
O turismo bombaria. Porto Seguro hoje explora o turismo histórico e o que chamam de Costa do Descobrimento dispõe de 70.000 leitos para turistas e movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano. Estão programando para os próximos anos um aeroporto com capacidade de 4 milhões de passageiros por ano. O atual, no Nordeste, só perde para os de Salvador, Recife e Fortaleza.
Então, por exemplo, nós temos aqui o monumento mais antigo das Américas, pós-Colombo, que é o Marco de Touros. Não é do Brasil, não, é das Américas. Não tem nenhum mais antigo. Mesmo se chegarmos ao absurdo de que foi chantado pelo falastrão Américo Vespúcio, ainda é o mais antigo. Quem o chama de falastrão não sou eu, é Câmara Cascudo.
Quem foi a primeira pessoa realmente que levantou essa hipótese de ser aqui, no Rio Grande do Norte, o local onde os portugueses chegaram?
Cascudo não fala textualmente, mas mostra suspeitas. Levantou a hipótese. E Lenine consolida essa hipótese. Lenine formata a tese, digamos.
E como você entrou em contato com o professor Carlos Chesman?
Nós temos um amigo em comum, Marcone. Ele é agrônomo e nossa amizade começou no CREA. Por conta disso, marcamos um almoço em 2022. Em 2021 eu já tinha publicado sobre a Serra Verde. Marcamos o almoço e eu já tinha “uma boneca” desse livro. Papo agradável, passei uma cópia para ele e, a partir daí, começamos a aprofundar esse estudo, com dificuldades também, porque somos pesquisadores independentes.
Qual a diferença do trabalho que você fez para o trabalho que Chesman fez agora?
Ele e Cláudio Furtado, como doutores em Física, aplicaram a física pura e tiveram seu trabalho publicado recentemente no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
Ou seja, nossa pesquisa se baseia em fontes primárias reconhecidas, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, autores quinhentistas e, como ferramentas, usamos a ciência e aquilo de que dispomos no século XXI. Termino com uma frase: No Rio Grande do Norte foi descoberto o Brasil!

Na sua avaliação, o que governos, entidades, institutos e até a UFRN poderiam e deveriam fazer para apoiar essa discussão e ajudar numa questão que pode beneficiar a economia do RN?
Desde o início, diferentemente de muitos curiosos sobre a verdade histórica, procurei, na minha pesquisa sobre o Descobrimento do Brasil no Rio Grande do Norte, me basear na Carta de Caminha como fonte primária e nas obras de autores coevos do século XVI. Além disso, utilizei as ferramentas que nos oferecem a ciência e a tecnologia do século XXI.
Hoje vivemos outra realidade e dispomos de meios inexistentes no passado para encontrar a verdade. Daí o título do meu último livro: Brasil 1500 – A Verdade.
A verdade está aos nossos olhos com os avanços que consegui em relação à tese de Lenine Pinto, culminando com os trabalhos de Chesman e Furtado, publicados no Journal of Navigation da Cambridge University.
Quanto à UFRN, com o seu apoio já confirmado, será realizado em 2026 um colóquio sobre o tema. Os trabalhos iniciais estão sendo coordenados pelo professor Carlos Chesman. Já contamos com o apoio da Academia Norte-Riograndense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do RN, do Instituto Ludovico, do SEBRAE, e apenas com a simpatia e promessas de outros.
Será um evento caro e dependemos de recursos oriundos do Governo do Estado, das prefeituras, do Legislativo, da iniciativa privada etc. Aqui temos, indiscutivelmente, o monumento mais antigo das Américas, pós-Colombo: o Marco de Touros, cujo original se encontra no Museu Câmara Cascudo, em Natal, com uma réplica na Praia do Marco, local onde Pedro Álvares Cabral e a armada permaneceram por mais de uma semana e tomaram posse da Terra de Sancta Cruz para Portugal, chantando o marco de pedra com a cruz e o brasão real gravados.
O apoio e a divulgação da tese certamente desenvolverão o turismo, como ocorreu na Bahia. Lá, na chamada Costa do Descobrimento, o turismo movimenta mais de R$ 1 bilhão anualmente, dispõe de mais de 70.000 leitos, e o aeroporto de Porto Seguro é o quarto mais movimentado do Nordeste, perdendo apenas para Salvador, Recife e Fortaleza, além de empregar a grande maioria da mão de obra formal da região.
Não esquecendo que a temperatura das águas de nossas praias varia de 26,5º a 29º centígrados, enquanto no Sul da Bahia, no máximo, chega a 26º e por curto período. Além disso, o sol e essa deliciosa brisa do litoral Leste do Estado. Os nossos gestores e nossos políticos não veem isso.

