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O MACACÃO, A GRAVATA E A ÉTICA

Há algum tempo, estava em Brasília conduzindo um Seminário sobre Negociação. Eram 30 participantes de 25 diferentes Organizações públicas e privadas.

O foco estava centrado em um dos princípios da abordagem com que trato o tema.

Dizia que em uma negociação, conduzir-se eticamente e estimular o outro para que o faça, é a melhor alternativa para a corresponsabilidade com o que for pactuado e, por consequência, o caminho para resultados sustentáveis no longo prazo.

Um participante me interrompeu: “Professor, quer dizer que é possível ter bons resultados, mesmo sendo ético?”

Anos depois, encontrei em Zygmunt Bauman, a mesma pergunta, em nova formulação, dessa vez apenas para fins de argumentação. “Será possível, sob a égide do capitalismo, viver a dialética, o paradoxo, entre ser ético e competitivo?”

Aquela questão, aquele mesmo sendo do participante me levou a pensar duas coisas.

“Passava longe a ideia de que a ética é requisito essencial para que se tenha uma vida boa. Para que valha a pena viver em sociedade”

A primeira.

A ética estava sendo percebida como uma complicação a mais na luta pela vida e que, para alcançarmos bons resultados, devemos desconsiderá-la e, quando não for possível, tangenciá-la e ir em frente, ainda que com certa culpa. Ser ético, portanto, significava querermos parecer “bonzinhos”, para terminarmos sendo bobos.

Passava longe a ideia de que a ética é requisito essencial para que se tenha uma vida boa. Para que valha a pena viver em sociedade. Ou seja, um comportamento bom para todos. Onde todos ganham.

Sobre isso é interessantíssimo observar a revolta, sim, a mais pura revolta, entre os poucos que ganham, quando uns poucos dentre os poucos que ganham, ganham muito mais do que o restante dos poucos, em muito pouco tempo. Você entendeu, claro.

A segunda.

O transgressor da conduta ética fica pasmo, verdadeiramente perplexo, quando o feitiço, de uma hora para outra, dá uma bela girada e explode na sua própria cabeça. Edgar Morin chama isso de “efeito bumerangue”.

Querem ver?

A revista EXAME, faz alguns anos, abriu uma matéria de três páginas, com o título “Ladrões de Casaca”.

Lá para as tantas, diz o seguinte: “As empresas defendem-se razoavelmente quando o ladravaz usa macacão. Mas são pateticamente vulneráveis quando ele veste paletó e gravata, tem sala própria e anda a bordo de carros cedidos pela companhia”.

Não se tratava de nenhuma consideração hipotética. Noticiava-se um fato ocorrido na poderosíssima Dow Elanco, uma associação do grupo Dow com a Eli Lylly para a fabricação de produtos agroquímicos.

O furto, até onde tinha sido apurado naquela época, chegava a US$20 milhões, envolvia o Diretor de Vendas além de dez dos principais executivos, todos com dez a quinze anos de Casa.

Na mesma matéria há um box com registro de casos semelhantes na General Motoros e na Bozzano-Revlon. A diferença é que as outras tentaram abafar e cuidaram de demitir os envolvidos. A Dow decidiu divulgar.

Minha experiência como consultor em diferentes organizações, me autoriza a afirmar que o grau de corrupção interna na área privada é surpreendentemente alto, mesmo quando comparado com as calamitosas notícias que recebemos todo dia sobre o despudor de certas personagens no setor público.

“Houve sim um tempo em que, quando um funcionário público era flagrado em um ato de corrupção, deixava toda uma família envergonhada. Vergonha essa que, não raro, contaminava gerações”

Para que se tenha uma ideia das proporções, basta saber que existe hoje – com grande solicitação do mercado – empresas de consultoria especializadas em descobrir e desmontar redes de ladroagem interna, constituídas por altos executivos. Note bem, não me refiro às clássicas auditorias internas ou à ação do controller. Não. Trata-se de algo mais especializado e que visa alcançar as ações que escapam dos métodos tradicionais de fiscalização.

Você está querendo saber como chegamos a este ponto?

Não é difícil a reconstituição da trilha percorrida. O caminho até a chamada “causa raiz”.

Houve um tempo, asseguro aos mais jovens, houve sim um tempo em que, quando um funcionário público era flagrado em um ato de corrupção, deixava toda uma família envergonhada. Vergonha essa que, não raro, contaminava gerações. Havia exceções, o cinismo e o despudor sempre existiram claro, mas, pasmem, chegava-se a suicídios!

Isso, hoje, é coisa do passado. Assim como mentira virou fake, o novo nome do roubo é “jogada”, ou então se incorporou ao significado da palavra negócio, o ato de roubar. Vergonha passou a ser tendo oportunidade não fazer, não tendo, não criar e, fazendo, ser descoberto.

Gradativamente as empresas foram abandonando sua preocupação com a produtividade, com seus custos – comprar melhor, recorrer a processos ino- vadores, diminuir ou eliminar perdas, ter pessoas capacitadas, motivadas, criativas, comprometidas etc. – para se voltarem, através da ação de compe- tentes corruptores, para a obtenção de resultados, literalmente, a qualquer preço.

Foi criada uma verdadeira tecnologia de corrupção. A valorização e as melhores remunerações deixaram de ser do profissional que desenvolveu um processo mais econômico e foram para aquele capaz de “montar um esquema” com alguém – do setor público ou mesmo de outra empresa privada – que ordenava a despesa, aprovava o preço, dirigia uma licitação ou arbitrava o preço de venda ao con- sumidor de determinado produto.

Aqui uma ligeira pausa para lembrar que, o que acaba de ser descrito acima é uma máquina de deformação moral e de geração de inflação.

Assim vieram as coisas acontecendo. Os dirigentes das organizações viam, sentiam em suas vidas, a crescente velocidade das mudanças. Percebiam quanto o mundo havia mudado nos últimos cinco ou dez anos, mas se conduziam como se nada fosse mudar dali para a frente. O futuro era olhado como uma extensão do presente, quase em linha reta.

Mas a mudança, nem pede autorização, nem avisa que está em curso. E novos valores foram aparecendo na sociedade. De repente, em 2004, a ONU, à frente o Secretário-Geral Kofi Annan, publicou um Relatório, em parceria com grandes bancos e fundos de investimento, dizendo ser inadiável que as instituições financeiras passassem considerar critérios ambientais, sociais e de governança - olhe aí de onde vem o ESG – ao decidirem em quais empresas iriam investir. Some-se a isso o crescimento das redes planetárias de comunicação, os clientes cada vez mais conscientes de seus direitos, a sociedade se organizando na defesa do consumidor, os órgãos de controle do Estado dispondo de melhores e mais amplos mecanismos de fiscalização e controle, a modernização das leis de licitação e contratos, cumprimento rigoroso de regras de compliance, e por aí vai.

Diante de tudo isso, a produtividade tornou-se uma ordem!

E, para obter maior produtividade, as empresas tiveram que “olhar pra dentro”, para a tal da eficiência, e não só para a eficácia, como a maioria vinha fazendo. E aí... Meu Deus! A corrupção havia tomado conta delas.

Estimularam e capacitaram seus executivos a criarem ou alimentarem corruptos. Acreditavam ser possível fabricar corruptores sem formar corruptos.

Justificava-se, aprovava-se e aproveitava-se da existência de ladrões no setor público. Nas suas organizações, não! A sociedade podia ter dirigentes corruptos. Suas empresas, não!

Pois não é que estão descobrindo que eles estão também “do lado de dentro”.

A matéria da “Exame” conclui assim:

“Casos como esses não são exclusividade da Dow Elanco. Eles podem acontecer em qualquer companhia. O problema, porém, transcende os muros da empresa. É ilusão supor que tais desvios não sejam repassados aos custos e, por tabela, aos preços finais dos produtos. No final quem paga a conta é o consumidor. Porque para os ladrões de casaca quase sempre nada acontece”.

Afinal, para desencanto de muitos, dos que conhecem apenas a linguagem da propina, ser ético tem voltado a ser um valor. Empresariar é mais do que apenas conversar e corromper.

Está na hora de levarmos à prática novos valores. De iniciarmos um processo de depuração, de letramento ético.

A ética e a moral de uma sociedade, tem a profundidade de uma geração, e, como o presente é o futuro em preparação, é hora de combinar que futuro queremos. Afinal, é no futuro que passaremos o resto das nossas vidas. A sociedade é um Contrato entre os que estiveram aqui, os que estão e os que virão. Deixo vocês com a exortação de Edgar Morin: “se não podemos construir o melhor dos mundos, vamos, pelo menos, construir um mundo melhor.”