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O RN E O “DESCOBRIMENTO” DO BRASIL, UMA QUESTÃO DE FÍSICA

Os físicos Carlos Chesman e Cláudio Furtado, professores da UFRN e da UFPB, conseguiram pela 1ª vez na história publicar em revista internacional artigo um artigo no qual demonstram que o Rio Grande do Norte, seria na verdade, o primeiro local que os portugueses atracaram em 1500, fato histórico que ficou conhecido como “descobrimento” do Brasil. Evidências reacendem a tese de que o Brasil nasceu na costa potiguar

O físico Carlos Chesman conta que, quando andava pelo Centro de Natal, sempre ouvia falar da teoria do pesquisador Lenine Pinto sobre a possibilidade de os portugueses terem atracado e desembarcado primeiro no Rio Grande do Norte, e não em Porto Seguro, na Bahia. O evento é conhecido historicamente como o “descobrimento do Brasil”, em 22 de abril de 1500.

Ele, que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ouvia isso e pensava se seria possível fazer uma avaliação do ponto de vista da Física. “É uma viagem, a viagem tem deslocamento, eu posso determinar a velocidade, tem um ponto de visada, a Terra é curva, eu posso geometricamente fazer isso”, lembra o que pensou na época.

As obrigações da UFRN — como dar aulas, orientar estudantes de mestrado e doutorado, entre outras — impediram o início dessa navegação.

Mesmo assim, Chesman deu um primeiro passo no sentido de realizar o trabalho. Foi ao Sebo Vermelho, editora de Abmael Silva que publicou os livros de Lenine Pinto, e, após isso, conseguiu adquirir os volumes. O pesquisador tem três livros sobre o tema: A Reinvenção do Descobrimento (1998), Ainda sobre a Reinvenção (2000) e O Mando do Mar (2015).

“Durante as férias do final do ano, dezembro e janeiro, eu vou estar na praia, vou aproveitar e vou ler”, pensou, na época. Era dezembro de 2019. Começava ali a travessia de Chesman, que agora está dando novo sopro à teoria levantada por Lenine Pinto. Nesse trabalho, ele conta com a parceria do professor Cláudio Furtado, do Departamento de Física da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e atual secretário de Ciência do Governo da Paraíba.

O estudo que os dois vêm desenvolvendo tem uma grande diferença em relação a todos os anteriores. Além dos dados históricos já reunidos por Lenine e outros escritores, como Manoel Cavalcanti Neto, Chesman e Cláudio Furtado usaram a tecnologia disponível hoje para verificar essas informações.

O resultado? Eles já conseguiram produzir três artigos científicos sobre o tema. O mais recente foi publicado no Journal of Navigation da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, em setembro deste ano.

As descobertas de Chesman e Furtado vão além de indicar o Rio Grande do Norte como tendo sido o primeiro porto dos portugueses no Brasil.

Mas, para chegar a isso, eles também atravessaram tempestades, tormentas e longos períodos de calmaria, quando foi difícil avançar rumo à nova terra que queriam descobrir. Entre as dificuldades, houve uma que, ironicamente, acabou ajudando os físicos a partir rumo à terra prometida.

“Comecei a ler, comecei a registrar os números da carta. Distância, profundidade. A carta é um relato quase que de um trabalho científico”

Após conseguir os livros e entrar em férias, Chesman acabou tendo ainda mais tempo para ler. “Veio a pandemia. Aí foi que eu continuei lendo, lendo, lendo, lendo, tudo. E ficou na minha mente que o documento mais fidedigno seria a Carta de Pero Vaz de Caminha”, conta.

Ele explica que há outros documentos — como a Carta do Piloto e a Carta de Mestre João —, mas que o texto produzido pelo escrivão da esquadra de Cabral “é o único que não tem nenhum problema de aceitação com os colegas da História”.

Carlos Chesman, professor da UFRN

“Comecei a ler, comecei a registrar os números da carta. Distância, profundidade... A carta é um relato quase que de um trabalho científico. Tem a data que sai, a data que chega. Uma citação logo no início: passamos pelas ilhas de Cabo Verde e após — o dado está em léguas, nos transferimos para quilômetros — 4 mil km avistamos sinais de terra. Eles não estavam vendo terra. Mas sinais de terra. Aves, sargaços”, relata.

Carlos Chesman explica que hoje, com mapas dinâmicos disponíveis na internet, todos os dados podem ser aferidos. E foi isso que eles fizeram. O professor recorda que uma outra passagem da Carta de Caminha lhe deu mais incentivo ainda para testar os dados que o escrivão registrou.

“A outra citação que me deu mais incentivo ainda foi que à distância de 30, 40, km se avista um monte e outros montes ao Sul. E por coincidência eu estava numa praia do litoral daqui, e os ventos trazem para cá. Aí peguei um dronezinho, subi o drone, 50 metros, aí saí fotografando. O drone era muito ruim. Mas analisando dava para ver essa conformação, essa estrutura geográfica”, conta.

Primeira página da Carta de Pero Vaz de Caminha

No caso, Chesman estava na praia de Zumbi, município de Rio do Fogo. Era março de 2020. Devido à pandemia de covid, a UFRN vivia um período no qual as aulas ainda não estavam acontecendo. Ele seguiu reunindo dados e analisando. Por volta do meio do ano, ele começou a compartilhar os dados com um grande amigo, o também físico Cláudio Furtado.

Cláudio Furtado, professor da UFPB

Inicialmente, eles conversaram remotamente. Depois, quando foi possível, se encontraram pessoalmente. “Ele é físico teórico, eu sou mais da parte experimental. Ele disse na época: 'Vamos com calma porque é um assunto bastante delicado’". A partir daí eles definiram uma estratégia para poder desenvolver o estudo e divulgar a tese. Para isso era preciso produzir artigos científicos, mas não era possível começar já contestando a tese principal do chamado "descobrimento", explica Chesman.

“A gente definiu que primeiro precisava fazer algo da física. Qual é a origem das correntes marítimas dos ventos que circulam? Tem uma força chamada força de Coriolis. Ela vem de onde? Ela vem da rotação da Terra, do movimento diário. Essa rotação da Terra, provoca uma força. É semelhante a você entrar num carrossel. Quando você entra em um carrossel, você é levado para o lado que ele tá girando. Isso a gente chama força Coriolis".

Segundo o físico, o conhecimento dessa força era um dos grandes segredos dos portugueses. E teria sido descoberto pelo navegador português Gil Eanes, em 1434. “Até então os portugueses viajavam sempre olhando para a terra, com medo de se perder. E Gil Eanes chegou e fez à volta pelo Cabo Bojador. Aí foi até lá, circulou, foi para o mar e voltou. E foi jogado de novo. Foi jogado de volta. Exatamente devido a esse movimento da terra que gera essa força e faz isso", esclarece.

Imagem feita pelos pesquisadores que mostra como, do mar, é possível ver as elevações na região de João Câmara

Isso tudo foi explicado no primeiro artigo publicado pela dupla, que saiu no início de 2023 pela Revista Brasileira de Ensino da Física. Esse primeiro foi a base para poder produzir os outros dois artigos que foram publicados depois e tratam da tese do descobrimento em si. “Foi quando a gente decidiu atacar realmente a Carta", conta.

PRIMEIRA ANÁLISE DA CARTA

Eles terminaram o segundo texto e começaram a submeter a publicações científicas. Para conseguir publicar um artigo do tipo, o texto precisa ser avaliado sob vários aspectos. Um deles é se o tema vem sendo discutido; outro, se possui relevância científica. Além disso, o conteúdo é analisado por diferentes pessoas.

Praia do Marco
Imagens da topografia da região de João Câmara

Na revista da Academia Brasileira de Ciências o artigo até passou pela primeira fase, mas depois, naufragou. “Passou pelo editor. Quando foi para o editor associado, ele escreveu: 'o manuscrito não tem relevância científica para ser publicado em nossa revista'. Faz parte do jogo", conta Chesman.

Então eles tentaram a revista Brazilian Journal of Science, uma publicação relativamente nova. E como funciona esse processo? O editor recebe e avalia. Se aceitar, passa para um editor associado que passa para dois árbitros. Esses dois avaliadores não sabem de quem é o texto e nem os autores sabem quem eles são. É a chamada avaliação por pares às cegas.

“Fazem a avaliação, se pode melhorar, se não pode, se as mudanças são muito grandes, se aceita, não aceita. E isso demora meses até a coisa acontecer. Aí, esse foi aceito e a gente faz a primeira análise da carta", relata. O artigo chama-se “Análise física a partir de dados científicos na carta de Pero Vaz de Caminha” (do inglês, Physical analysis from scientific data in Pero Vaz de Caminha’s letter).

No texto, que foi publicado em dezembro de 2024, eles analisam os dados disponíveis na carta usando ferramentas e tecnologias atuais. Com base nessas análises — de distância, tamanho das caravelas, profundidade do mar, dos ventos e das correntes marítimas — os pesquisadores apontam que ao invés de Porto Seguro, na Bahia, o primeiro local visto e que foi ponto de desembarque dos portugueses teria sido a costa do Rio Grande do Norte.

E especificam mais: que o primeiro local onde a esquadra de Cabral atracou foi a foz do Rio Punaú, na praia de Zumbi, município de Rio do Fogo; exatamente o local onde Chesman passou um período lendo e analisando dados.

Os físicos também indicam que o monte avistado teria sido na verdade o Serra Verde, elevação no município de João Câmara e que fica próximo a outros montes.

Por fim, eles concluíram que o tal porto seguro a que se referem os portugueses é realmente a Praia do Marco, no município de Pedra Grande. No local há um espaço natural protegido por recifes que é como se formasse uma pequena baía.

Para fundamentar tudo isso, além dos cálculos e medições, os pesquisadores usaram mapas dinâmicos e também fotografaram e mapearam tudo o que foi possível. Uma dessas imagens mostra inclusive a praia do Marco de cima, evidenciando o que seria o tal “porto seguro” falado na Carta de Caminha.

Eles também ouviram relatos de pescadores e foram ao mar para tentar ver o que viram os portugueses. E, após algumas tentativas, conseguiram registrar uma imagem que mostra o litoral do RN e o que apontam como sendo os montes Serra Verde, Amarelão e Torreão, todos em João Câmara.

A partir da publicação deste segundo artigo — com esses dados e feito desta forma — a tese que por tantos anos foi responsável pelo fato de Lenine Pinto ser chamado até de “lunático", voltou a ganhar força.

Gil Eanes, que descobriu a força de Coriolis

Foi então que Carlos Chesman e Cláudio Furtado deram um terceiro passo para fortalecê-la ainda mais. Eles encaminharam um novo texto à publicação The Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra: “Dados científicos na Carta de Pero Vaz de Caminha” (do inglês, Scientific data in Pero Vaz de Caminha's letter).

Tal qual a travessia de um oceano, a resposta demorou. O artigo foi recebido em 11 de junho de 2024 e revisado em 18 de dezembro de 2024. Em 21 de julho de 2025 foi aceito. Mas somente em 8 de setembro de 2025 foi publicado, um ano e três meses após seu envio.

Um fato inédito: foi a primeira vez que um artigo científico sobre este tema, feito por físicos, usando dados e revisando-os, é publicado no Brasil e internacionalmente. Esse é o grande feito de Chesman e Furtado. Grosso modo, é como se eles acabassem de encontrar uma nova terra.

“Esse de Cambridge é o mais relevante. Porque é uma revista internacional. Digamos que tenha hoje uma relevância maior", afirma Carlos Chesman. E frisa: “Então, nesse sentido, é um trabalho inédito, inédito internacionalmente, como eu disse. Internacionalmente".

Monte Torreão, em João Câmara, um dos que teria sido avistado por Cabral

O VERDADEIRO MONTE PASCOAL POTIGUAR

Um dos pontos principais da pesquisa foi ter usado uma embarcação para tentar registrar o que viram os portugueses quando estavam chegando à costa brasileira e também fazer medidas de profundidade do mar. Para isso, os pesquisadores alugaram um barco. O pescador, curioso, queria entender o que se passava. Eles explicaram que estavam realizando medições para comprovar que teria sido no RN o primeiro lugar que os portugueses avistaram.

“O pescador disse: ‘Eu tenho certeza que foi aqui", conta Chesman. Ele aproveita para esclarecer uma questão que sempre rende polêmica em meio à tese do achamento do Brasil ter ocorrido no Rio Grande do Norte: a hipótese do Monte Pascoal ser na verdade o Pico do Cabugi.

“De lá o que está se avistando não é o Pico do Cabugi. É o Monte Serra Verde. Por quê? De Macau, de Guamaré, você vê o Pico do Cabugi. Quanto mais eu for para Macau, Guamaré, você vê o Pico Cabugi. A distância do litoral até o Pico é 60 km. Só que do litoral Leste para o Pico do Cabugi são 120 km. E as embarcações, pelos ventos, elas vêm pelo Leste. Digamos que Lenine cometeu esse equívoco porque achava que o Pico do Cabugi seria visto pelas embarcações, só que as embarcações vêm do Leste. E do Leste, pela fato da terra ser um globo, não dá para ele ser visto", explica.

Serra Verde, a elevação que seria o "Monte Pascoal potiguar"

E complementa: “Ele teria que ter muito mais metros. No lugar de quase 600, teria de ter 1.000, 1.200 metros de altitude. Porque a distância é bem maior. Entretanto, lá do litoral norte, do norte do Rio Grande do Norte, você vê o Pico do Cabugi. Agora, do Leste, você não vê. Foi por isso que eu fui para o mar, para identificar".

Os primeiros a apontar o Monte Serra Verde como sendo o Monte Pascoal Potiguar foram os dois físicos e o pesquisador Manoel Cavalcanti. “Fomos eu, Manuel e Cláudio. Eu fui para o mar. E Manuel ficou fazendo o mapa, vendo a latitude, longitude", conta.

A missão de ir ao mar para realizar o avistamento, entretanto, não foi tão fácil. Foram necessárias pelo menos cinco vezes para conseguir ver. E para conseguir fazer a foto que ilustra o estudo foram necessárias pelo menos outras três tentativas. Chesman também lembra que em conversa com outro pescador, o dono da embarcação que ele alugou, ouviu um relato que ajudou na localização dos montes.

Segundo ele, o homem chama-se Jonas e contou que um dos pontos de referência usado pelos pescadores é o Cabo de São Roque, no litoral leste, à noite. E que de dia, o ponto de orientação era exatamente o monte Serra Verde.

“Ele disse: ‘Ó, se você olhar, o monte, esse monte grande aí, fica atrás do farol do Cabo São Roque’. Ou seja, provavelmente o Cabo São Roque foi colocado depois para marcar o monte", avalia.

Cabo de São Roque e seu farol

OS PRÓXIMOS PASSOS

Cláudio Furtado e Carlos Chesman não avaliam agora publicar um novo artigo ou livro. Segundo o físico da UFRN a ideia é divulgar o máximo possível a tese para conseguir abrangência nacional. Para isso eles planejam realizar um evento em 2026, que já tem nome: Colóquio Internacional Câmara Cascudo, homenagem a uma das primeiras pessoas que discutiu as controvérsias do "descobrimento", o folclorista potiguar Câmara Cascudo.

Atualmente eles estão na fase de mobilização de apoios, falando com entidades, prefeituras, governo, instituições, outros pesquisadores, políticos e empresários. A ideia é que esse evento tenha a presença, inclusive, de pessoas de fora do Rio Grande do Norte. O objetivo é ampliar o alcance da discussão e assim fortalecê-la.

Uma coisa é certa e não requer qualquer equipamento moderno para comprovar: mesmo com todos os dados e comprovações técnicas, o caminho da tese que afirma o Rio Grande do Norte como ponto do chamado "descobrimento" do Brasil ainda precisará enfrentar muitas tempestades até que, quem sabe, um dia, chegue ao porto seguro de ser reconhecida como versão oficial da história do Brasil.

Praia do Marco, o porto seguro onde teriam atracado os portugueses

#BATE-PAPO COM CARLOS CHESMAN

O que é que o senhor espera agora com essas descobertas?

Minha mãe toda vez pergunta: ‘Além de você fazer aula, faz o quê que passa o dia todinho na universidade?'. A gente faz as outras atividades de uma universidade que é a parte de pesquisa e a parte de ensino. A tríade ensino, pesquisa e extensão. Publicar é algo da extensão, um resultado acadêmico que pode modificar a realidade local. Se não existe uma entidade como essa, uma universidade, que paga meu salário, que tem uma estrutura, para a gente ficar pensando, debatendo essas coisas que não levam a nada… Levam sim. É isso que a gente mostra. O resto do mundo tem grandes universidades. Então, para a gente seguir o padrão, digamos, de desenvolvimento, tem que ter universidades. Tem que ter pessoas pensantes para poder atuar no dia a dia e também projetar novas ações. Eu tenho que agradecer muito ao povo brasileiro porque é ele que paga para gente ficar pensando nessas coisas. Eu me sinto muito honrado de poder fazer isso. Isso me deixa muito contente. Ter essa estrutura que possibilita produzir ciência e conhecimento.

“O que está faltando é o reconhecimento dos políticos”

O senhor acredita que é possível fazer essa revisão histórica?

Política não é um pensamento linear tão simples assim. Economia também não. Porto Seguro é o nascimento do povoamento do Brasil. Sim. Isso é verdade. Tem até outro fato: Manuel (Cavalcanti) fez a distância entre a Praia do Marco e Cananéia (SP). Dá 3.200 km. Porto Seguro está exatamente no meio, a 1.600 km dos dois marcos. Então, é uma questão geográfica: eu tenho uma área, marco dois pontos e vou começar a povoar onde? No meio, para eu poder proteger. Quem foi que disse que foi Porto Seguro? Foi o visconde de Porto Seguro, o diplomata e historiador Francisco Adolfo de Varnhagen. Ele é considerado o pai da história do Brasil. Foi ele quem estabeleceu essa versão oficial de que o achamento foi lá. Mas aí, os dados não batem com o que está na Carta de Pero Vaz de Caminha. Eu tenho colegas cientistas renomados, que dizem: ‘Eu não acredito, mas vá em frente'. Mesmo com todos os dados. Para mim, vai ser muito difícil. No Brasil, pelo formato da nossa Constituição, algo só vira verdade, não é quando os cientistas dizem a verdade. É quando se tem uma lei constitucional. Para virar uma lei constitucional, tem que passar no Congresso. E tem o que a gente chama do dilema da maioria. A maioria sempre acha que tem razão. Tem a questão econômica também. Segundo um outro colega — eu não aferi esse número — o turismo da região, da rota do descobrimento, movimenta por ano R$ 1 bilhão. Tem um pequeno aeroporto lá em Porto Seguro. Um aeroporto. As pessoas vão de avião para lá.

Visconde de Porto Seguro

E o que é que o Rio Grande do Norte ganha se a gente conseguir massificar essa tese?

A primeira coisa é instalar a verdade, que aparentemente é essa. E geograficamente, o Rio Grande do Norte é mais estratégico. Não só para a Segunda Guerra. Então, o que está faltando é o reconhecimento, digamos, dos políticos, que trazem os ventos do dinheiro. Se vai ser verdade, digamos, histórica no Brasil... O Brasil, como eu falei, é tão pequeno que duas três pessoas você chega na pessoa mais importante do país. Agora a pergunta é: chega e convence?

O que os governos, as entidades e até a UFRN poderiam e deveriam fazer no sentido de apoiar essa discussão e ajudar na consolidação dessa tese que pode beneficiar a economia do RN?

Essa pergunta tem uma resposta muito ampla. Depende de muitos fatores, vai depender de muita gente e o tempo é que é o senhor de tudo isso. Mas vamos lá. Foi o que eu e Cláudio fizemos. Fizemos um manuscrito que foi aceito numa revista indexada internacionalmente da Universidade de Cambridge. Isso é um selo internacional de qualidade. Passo dois. A UFRN é quem nos apoia. No meu caso, a UFRN, no caso de Cláudio, é a UFPB, que ele é professor de lá. A UFRN está nos apoiando para fazer um evento em abril. A gente pretende fazer o Colóquio Internacional Câmara Cascudo em abril para debater esse assunto. Longe de querer ser o senhor da verdade, além desse selo internacional, a gente vai procurar debater com outras pessoas, outros colegas, para saber se essa verdade corrobora com outros fatos. O que a gente provou é que corrobora com o que está escrito na Carta de Pero Vaz de Caminha. A UFRN está apoiando esse evento, na parte de infraestrutura. A Funpec vai fazer toda a parte logística. Já fui no Sebrae e eles vão aportar os recursos. A Fecomércio também se comprometeu. Estou tentando contato com a FIERN. Posteriormente e paralelamente, estamos tentando contato com os políticos. Infelizmente, não consegui agenda até agora com a governadora; não consegui agenda ainda com o atual prefeito de Natal. Nem tentei agenda com os prefeitos, digamos, dessas cidades que devem se beneficiar. Por exemplo, João Câmara, onde está o Monte. E também Barra de Maxaranguape, Rio do Fogo, Touros, São Miguel. Essas que fazem o litoral ali onde deve ter chegado as embarcações. Isso é um contato a posteriori.

Quais são os benefícios se, realmente, isso for acontecendo ao longo do tempo?

Por exemplo, em Porto Seguro, na região de Porto Seguro, chamada Rota do Descobrimento, lá se movimenta cerca de 1 bilhão de reais por ano. Lá tem mais de 50.000 leitos de hotelaria. Tudo isso traz benefícios para essa região. Tanto para pequenos empresários quanto para grandes empresários. Então o benefício seria direto para o turismo. E o principal, para o Brasil, seria conhecer a sua realidade de chegada que foi aqui. Usando-se a física, usando-se os dados meteorológicos, usando-se as correntes, os ventos alísios, tudo indica que é aqui. Diferentemente do que foi dito anteriormente, que é em Porto Seguro, através de uma outra medida de 17 graus de uma carta que, segundo os historiadores, a carta do Mestre João, não é uma carta fidedigna da realidade da época. Enfim, o tempo dirá. Mas aqui nós estamos empenhados em fazer isso acontecer.

ENTENDA O ESTUDO DE CARLOS CHESMAN E CLÁUDIO FURTADO PONTO A PONTO

Para facilitar o entendimento dos mais recentes artigos, a Municípios em Foco colocou o que é dito na Carta de Pero Vaz de Caminha e o que dizem os pesquisadores Carlos Chesman e Cláudio Furtado. Confira abaixo:

O que diz a carta:

Sobre a Distância Percorrida:
"... que topámos alguns sinais de terra, sendo da dita ilha [Cabo Verde], segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas..."

Sobre o Avistamento do Monte:
"...É, primeiramente d’um grande monte, mui alto e redondo, e d’outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz."

Sobre a Profundidade e o Porto Seguro:
"...Mandou lançar o prumo, acharam 25 braças... e seguimos direitos à terra e os navios pequenos diante, indo por 17, 16, 15, 14, 13, 12, 10 e 9 braças até meia légua de terra... ancoraram-se em cinco, seis braças, a qual ancoragem dentro é tão grande e tão fremosa e tão segura que podem jazer dentro nela mais de 200 navios e naus."

Sobre o Rio e o Capitão:
"...passaram logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal... E então o capitão fez-se tomar ao colo de dous homens e passou o rio e fez tornar todos."

Sobre as Barreiras ao Sul:
"Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Em algumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas e delas brancas e a terra, por cima, toda chã e cheia de grandes arvoredos."

O que dizem os pesquisadores

Rota e Física da Navegação:

• A distância percorrida de Cabo Verde ao avistamento de terra é de aproximadamente 4.000 km (670 léguas, considerando 1 légua = 6 km).

• Traçando essa distância seguindo a trajetória determinada pelos ventos e correntes oceânicas (Força de Coriolis), a rota conduz à costa do Rio Grande do Norte (RN), o que é inconsistente com uma linha reta para Porto Seguro (BA).

Touros, um dos municípios que pode ser beneficiado pela "nova rota do descobrimento"

O monte avistado (Monte Pascoal Potiguar):

• Cálculos de Altura: Utilizando a curvatura da Terra, um monte visível a uma distância de 30 km a 40 km deve ter entre 70 m e 125 m de altura.

• Identificação: O monte Serra Verde (chamado Monte Pascoal Potiguar), em João Câmara (RN), com 240 m de altitude, é compatível com os cálculos e visível da rota Leste-Oeste.

• Conformidade: O monte Serra Verde possui o formato de uma grande colina redonda e tem serras mais baixas ao sul dela (Torreão e Amarelão), o que se alinha com a descrição da Carta.

O Porto Seguro e a Batimetria:

• Localização: O porto seguro é identificado como a Praia do Marco (RN), que é protegida por um arrecife.

• Dimensões: O local possui dimensões de aproximadamente 1.500 m por 700 m, área mais que suficiente para as "mais de 200 navios e naus" mencionadas, cujas embarcações variavam de 25 m x 10 m (caravelas) a 50 m x 20 m (naus).

• Concordância de Profundidade: A profundidade registrada na Carta de "cinco, seis braças" (11,0 m a 13,2 m) no interior do porto está em completo acordo com as medições atuais no local (cerca de 10 m na entrada da baía da Praia do Marco). O perfil de profundidade constantemente decrescente (de 25 braças até 9 braças) é mais bem explicado pela chegada Leste-Oeste no RN.

O Rio e as Barreiras Geográficas:

• O Rio Estreito: O rio próximo ao porto que é "não mais ancho que um jogo de mancal" e que exige que o capitão seja carregado, é identificado como o Rio Punaú (praia de Zumbi), que é um riacho estreito. Esta descrição é incompatível com o largo Rio Buranhém (300 m a 500 m de largura) em Porto Seguro (BA).

• Barreiras Vermelhas: A descrição de grandes barreiras vermelhas a 20 ou 25 léguas (120 km a 150 km) ao sul do porto seguro da Praia do Marco corresponde à Barreira do Inferno no litoral sul do RN, localizada a aproximadamente 130 km. Não há falésias vermelhas nessa distância ao sul de Porto Seguro (BA).