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QUANDO O ESTADO FICA EM DIFICULDADE FINANCEIRA, OS MUNICÍPIOS FICAM ÓRFÃOS

Atual secretário de Planejamento de Natal e ex-secretário de Planejamento estadual, Vagner Araújo, analisa a situação fiscal e financeira do Rio Grande do Norte; e aponta o que é necessário para trazer o RN de volta ao equilíbrio. Ele também expõe como essas dificuldades afetam as cidades potiguares.

No final de 2018, o atual secretário de Planejamento de Natal, Vagner Araújo, coordenava o programa Governo Cidadão, iniciativa bancada pelo Banco Mundial para ações no governo do estado. Na época, ele pediu que a instituição preparasse um diagnóstico sobre a situação financeira e fiscal do Rio Grande do Norte. A ideia era que um órgão independente produzisse esse raio-x, mapeando problemas e apontando soluções para que o estado recuperasse o equilíbrio.
O estudo foi feito e entregue ao então novo governo, que assumiu em 2019.
Passados sete anos desde que o estudo foi feito — e com a experiência de quem foi secretário de Planejamento (governo Wilma de Faria) — Vagner Araújo analisa a atual situação do Rio Grande do Norte, seus desafios e possibilidades. E os passos que um futuro governador precisará dar para reverter essa situação. O secretário afirma que precisam ser tomadas medidas duras e que é necessário fazer isso sem pensar na questão eleitoral, algo que sempre tem prejudicado o estado como um todo. Como gestor de Planejamento em Natal, Vagner Araújo demonstra como essa situação afeta e prejudica os municípios.

O Banco Mundial realizou um diagnóstico sobre a situação fiscal do Rio Grande do Norte. Como foi este trabalho?
Quando eu estava na coordenação do programa do Banco Mundial, no segundo semestre de 2018, vi que o estado já vinha numa situação complicada. Na época, no mandato de Robinson (Faria) — e também no mandato de Rosalba (Ciarlini) —, houve vários problemas, usando o recurso do fundo previdenciário, atraso de folha, essa coisa toda. E a gente via que ali tinha causas estruturais. Claro que quem paga o pato sempre são os governos, mas nós tínhamos ali uma sequência de problemas que dizia muito mais respeito à omissão, ou seja, à falta de ações, de iniciativas dos governos. O estado piora — na minha visão — em parte pelo que os governos fazem, mas muito mais pelo que os governos deixam de fazer. Muito em cima daquilo que os governos precisam fazer e que não fazem. A começar por um detalhe que eu me apego muito a ele, que é aquela história de você fazer transição administrativa. Sem isso, quando o novo governo assume, ele nunca sabe o que é que ele vai encontrar, na verdade. Ele tem uma visão turva, uma visão superficial.

"O estado piora — na minha visão — em parte pelo que os governos fazem, mas muito mais pelo que os governos deixam de fazer. Muito em cima daquilo
que os governos precisam fazer e que não fazem"

E o que isso tem a ver com crise financeira do Estado?
Tem a ver que para poder tomar medidas para reequilíbrio de uma estrutura de governo, de um Estado, no caso, você tem uma janela temporal muito curta, um espaço de tempo curto. Esse alinhamento dos astros, alinhamento dos planetas, ele ocorre ali nos primeiros dias, nos primeiros meses de um novo governo, quando você tem as condições minimamente ideais para isso. E que condições são essas? Você está chegando; tem já de cara o discurso que vai arrumar a casa; tem uma certa gordura política, porque acabou de ser eleito. Então está ali com aquela coisa da vitória, um ambiente favorável, e tem, sobretudo, tempo para usufruir, vamos dizer assim, dos resultados positivos dessas medidas de cunho negativo, ou seja, antipáticas, que você tem que tomar no início do mandato. Então, como as pessoas no Rio Grande do Norte não costumam fazer esse negócio de transição política, eles nunca sabem o que vão encontrar. Eles só vão saber quando sentam na cadeira. Quando sentam na cadeira, que começam a se deparar com os problemas, não estão preparadas para lidar com aqueles problemas. Para tomar medidas. E o preparo para isso leva tempo. E a dificuldade é muito maior quando você vai tentar preparar isso já sentado na cadeira. O ideal é que você tome conhecimento prévio e prepare as medidas previamente para você saber o que fazer logo nos primeiros dias. Pensando nisso, na época que a gente estava lá concluindo e ia se aproximando do final do governo, aproveitando que nós estávamos ali com um contrato com o Banco Mundial, com recursos e que o Banco Mundial é uma instituição séria, que é uma instituição internacional, multilateral, eu disse: "Olha, eu vou pedir ao Banco para que eles façam um raio-X da situação fiscal, financeira e administrativa do Rio Grande do Norte". Para nos dar um diagnóstico e principalmente nos dar um rumo. O que fazer? Qual a situação? É essa. E para resolver isso, o que é que precisa ser feito? Isso e isso. Eu pensei que para um novo governo que viesse a assumir — que terminou sendo Fátima (Bezerra) — ia ter o privilégio de contar com um diagnóstico do Estado feito por especialistas de alto gabarito e alguns deles até internacionais. Um dos que atuou nesse trabalho foi um espanhol que trabalhou na recuperação fiscal financeira da Espanha, na crise de 2008. Era como uma bula, ou seja, como um guia do que fazer, tudo feito pelo Banco Mundial. Um instrumento fundamental, inclusive, para sentar com os Poderes, porque uma das barreiras para se tomar medidas de equilíbrio é você negociá-las com os demais poderes, as questões orçamentárias, com a Assembleia, TJ, TCE, o MP, alguns sindicatos, as categorias. Então, ali, você diz: "Ó, pessoal, não sou eu que estou dizendo. Está aqui, é um documento do Banco Mundial. É um documento isento e com autoridade técnica". Então foi esse o objetivo e de fato foi isso que aconteceu. Pelo menos a intenção.

E o que aconteceu?
O Banco veio, nós fizemos um contrato, eles passaram aqui vários meses trabalhando em microdados do estado, projeção de folha, de aposentadoria, de progressões salariais vegetativas, aquelas que crescem sem ninguém fazer nada; com a estrutura de despesa do estado, a estrutura de receita e fizeram um trabalho fabuloso. Quando iniciou-se o processo de transição na época, isso foi entregue e apresentado pelo próprio Banco Mundial à governadora. Passou ali um dia inteiro naquele auditório do hotel perto da Arena das Dunas. Veio o diretor do Banco Mundial no Brasil. Veio porque para o banco é importante isso. Eles têm essa preocupação de equilíbrio fiscal, inclusive para poder operar com eles. Então, o diretor do Banco veio, passou o dia, os técnicos que fizeram o estudo, os economistas, entraram e mostraram dados e foi impressionante. As pessoas diziam: "Hoje vocês conhecem o Rio Grande do Norte mais do que nós mesmos".

E o que o estudo revelou?
Esse estudo trouxe três cenários de solução. Ele traz o diagnóstico e traz uma proposta de solução em três cenários, três opções. Uma opção, a primeira, é com medidas duras, mais fortes, que apontam para uma recuperação financeira do estado em um ano. Então, era assim: "no final do primeiro ano do mandato, tomando essas medidas aqui já em janeiro, suspendendo isso, cortando aquilo, reduzindo aquilo, fazendo isso, fazendo aquilo, quando chegar no final deste ano, já tem um respiro, o estado já vai estar respirando sem aparelhos". O segundo cenário seria para ajustar o Estado em um mandato. Não é em um ano, mas nos próximos três anos. Para chegar ao final do mandato com o estado recuperado. Tem algumas medidas mais duras, mas não tanto quanto essa do cenário um. E tem um terceiro cenário que é com medidas bem mais brandas que iria recuperar o estado para um segundo mandato. O primeiro não vai não vai ser resolvido, mas no segundo mandato, tipo 5 anos, 6 anos, o estado vai estar recuperado com medidas mais suaves. E eles alertavam que, no caso, esse terceiro cenário era meio que obrigatório, tipo assim: “Esse terceiro cenário não pode deixar de ser feito". Porque senão o estado vai entrar na bancarrota total. Então foi isso que aconteceu. Esse estudo foi feito, foi entregue e solenemente apresentado, detalhado, explicado à governadora que estava para assumir na época.

O que foi feito?
Pelo que eu percebi, infelizmente — eu acho que os dados de hoje apontam para isso — nada foi feito, ou seja, o estudo foi descartado, foi desconsiderado.

Quais eram as medidas desse primeiro desse cenário, mais duro?
Tinha medidas como a venda de ativos, privatização de ativos, como a própria CAERN. Alguns imóveis. Fazer algumas medidas também na área da previdência, fazer recuperação de crédito, da dívida ativa, isso na área de receita. Na área de despesa, seria a contenção total na elevação do gasto com pessoal, revisão de algumas normas, de algumas leis que geram o aumento, o crescimento da despesa com pessoal. São leis e progressões que ocorrem aí na área de pessoal, que mesmo você não dando reajuste nenhum a folha vai crescendo sozinha. O pessoal detectou que esse era um fator de desequilíbrio do Estado, a existência dessas normas com essas progressões. E uma observação importante é a seguinte: na época da inflação, quando você tem uma folha que aumentou, subiu muito, cresceu muito e isso apertou o Estado, você só precisa esperar o tempo passar para que aquilo se resolva sozinho, porque sua receita vai sendo corrigida a todo momento. Na despesa, não. A despesa, no caso da folha, fica parada. Então, a inflação alta, com três, quatro meses, uma despesa alta, cai sozinha, porque o valor nominal dela permanece e o valor real diminui. Enquanto que, na receita, o valor nominal é sempre correspondente ao valor real. Geralmente existem indexadores da receita. Então, acho que nós temos, aqui no Rio Grande do Norte e em termos de Brasil, uma certa cultura disso, um mau costume, um vício de achar que pode dar esse aumento aqui, vou deixar isso aqui desse jeito, porque politicamente é melhor, não vou querer ter desgaste com isso. Porque mais na frente as coisas se resolvem. E a notícia ruim é que num período de inflação baixa, as coisas não se resolvem. Aquela despesa não vai diminuir, ela vai continuar.

"Os governos de Robinson Faria, de Rosalba Ciarlini e o atual, de Fátima Bezerra, não só não fizeram o que deveriam como também deixaram de fazer coisas que eram necessárias serem feitas. Ninguém quer tomar medidas duras. Fica todo mundo levando com a barriga"

Estamos agora em 2026, sete anos após o estudo. Como o senhor avalia a situação hoje?
O jornal O Estado de São Paulo trouxe um dado bastante preocupante, dizendo que o Rio Grande do Norte é a pior situação do Brasil, entre os estados brasileiros, em termos fiscais. O fato é que o estado realmente está numa situação muito difícil. Quase se tornando ingovernável e medidas terão que ser tomadas. Eu já estou perto dos 60 anos. Já tenho um pouco de estrada. Eu cheguei ao governo do estado pela primeira vez em 94, tinha 25 anos quando fui secretário de trabalho e serviço social e vi que o estado ele tem um gráfico assim: cai, cai, cai, cai, bate no fundo, aí dá uma subida, aí vai caindo, vai caindo, vai caindo, vai caindo, bate no fundo, dá outra subida. Ele vem ao longo das décadas acontecendo isso. No governo Geraldo Melo, o Bandern fechou, atraso de salários, uma lástima financeira. E ali você viu uma situação bastante complicada. E o estado bateu no fundo. Saiu Geraldo, entrou José Agripino, que era adversário e que ganhou a eleição e que ia recuperar o estado. Não recuperou. Realmente o estado continuou na mesma situação. Aí chegou Garibaldi (Filho) que, esse sim, fez um trabalho forte de recuperação com medidas bastante duras, privatização da Cosern, redução, eliminou uma quantidade enorme de estrutura. Fez aquele PDV, processo de demissão voluntária. Garibaldi pegou, na minha visão, um time muito bom, pessoas que vinham da administração federal, porque Aluízio Alves, tinha sido ministro e ele reuniu um time com alguns potiguares inclusive, que atuaram em nível federal. Então chegaram aqui Bira Rocha, Ivanaldo Bezerra e o próprio Paulo Varela na época também. Então Garibaldi veio com um time e montaram um plano, um programa de recuperação do estado e tiveram coragem de botar em prática. Então ali ele conseguiu recuperar o estado. Quando chegou próximo ao fim do governo Garibaldi, já entrando ali com Fernando Freire, ele deixou um pouco a coisa meio que desandar. Porque isso também é um fenômeno político. Os governos, quando chegam no final do ano, eles abrem as pernas, como a gente diz. Todo o esforço que foi feito, aquelas medidas de austeridade, de controle, de equilíbrio, elas se perdem, porque aí eles começam a ceder aos Poderes, aos sindicatos, aos órgãos, aos movimentos de pressão que terminam afetando o gasto. Aí começa a gastar muito e repassar recursos para todo mundo, atender coisas que não era possível atender, mas eles terminam atendendo porque está na pré-eleição. Então o governo Garibaldi fez um grande esforço, mas eu acho que no final do segundo mandato dele, ele abriu as pernas. Ele que eu digo é Fernando Freire, que foi quem assumiu. E aí entra Wilma (de Faria) e nós aí nós fizemos sim uma transição grande, extensa, 200 pessoas trabalhando desde os dias iniciais, depois da eleição. E a gente fez realmente um levantamento profundo da situação e começamos a preparar medidas. Nós tínhamos ali um déficit orçamentário na época de R$ 200, R$ 300 milhões de reais. Detectamos isso com antecedência. Tem gente que assume o governo sem nem saber qual é o déficit, de onde ele vem e porque ele existe. Nós chegamos nesse nível de detalhamento, preparamos medidas e fizemos uma recuperação para manter o equilíbrio, a capacidade de investimento que o Estado teve. E aí nós conseguimos manter durante os 8 anos de Wilma, a folha em dia pagando adiantada, antecipado metade do 13o e o restante antes do Natal, no final de cada ano. Teve zero atraso de folha durante os 8 anos de mandato. Conseguimos fazer investimento, como a ponte que está aí; e também a ponte de Macau, a Ilha de Santana em Caicó, as adutoras, fizemos quase 2.000 km de adutoras incluindo as pequenas. Então assim, o Estado navegou bem, com equilíbrio e capacidade de investimento. Quando chegou o final do mandato, aí aconteceu esse fenômeno, começa a abrir as pernas. Isso inclusive porque na época o presidente da Assembleia, Robinson Faria, era um pretenso pré-candidato ao governo. Ele disputava o apoio do governo com Iberê (Ferreira de Souza). E como presidente da Assembleia, ele jogou uma pauta-bomba, assim, uma pauta de aprovar tudo que os Poderes queriam, aumentou o orçamento de todo mundo. Já tinha um certo afrouxamento do próprio Executivo, cedendo ali, atendendo algumas demandas, mas quando chegou no Legislativo, isso ainda piorava. Então ali criou-se também uma série de situações que viriam a causar transtorno financeiro para o estado mais à frente. E a ironia do destino foi que o próprio Robinson Faria depois se tornou governador e teve que lidar com os efeitos daquelas pautas-bomba que ele liderou a aprovação na Assembleia porque estava descontente com o governo pelo fato de Wilma ter optado por Iberê (para ser seu candidato à sucessão). E também porque queria agradar os Poderes, as categorias, todo mundo. Então, infelizmente é isso que acontece, falando muito francamente: O estado vem e bate no fundo do poço, aí alguém chega e faz um trabalho, recupera e tal. Daqui a pouco, vai cedendo, vai cedendo e vai caindo de novo. O Rio Grande do Norte vive num circuito de recaídas que ocorre a cada década. E isso é uma infelicidade porque o estado tá sempre em crise, sempre em dificuldades. E isso atrapalha o desenvolvimento econômico. O estado tem muitas potencialidades econômicas em vários aspectos, mas o governo, o estado ou o ente público, ele termina por — em vez de impulsionar isso — ser um fator de atraso. Por conta dessa situação.

Mas após Wilma de Faria, nos dois governos posteriores, houve uma piora?
Foi. Aí eu acho que já foi mesmo problema de gestão. Porque os governos de Robinson Faria, de Rosalba Ciarlini e o atual, de Fátima Bezerra, não só não fizeram o que deveriam como também deixaram de fazer coisas que eram necessárias serem feitas. Ninguém quer tomar medidas duras. Fica todo mundo levando com a barriga. “Ó, tem que fazer isso, tem que tomar medida, tem que cortar isso, tem que suspender aquilo, tem que tomar…" Enfim, ninguém faz isso. Há uma falta de planejamento. Os governos entram para depois saber o que é que vai acontecer. O próprio Robinson quando assumiu, quando ganhou a eleição, ele praticamente não fez transição. Rosalba, que eu saiba, também não fez transição. Fátima, com certeza não fez transição porque inclusive eu estava lá, estava no projeto do Banco Mundial do governo Robinson. E houve uma comissão de seis pessoas, fizeram umas três, quatro reuniões, pediram lá uns documentos, entregou-se lá um monte de papel, de relatório e aquilo não é transição. Transição, sinceramente, é aquilo que a gente fez na época de Wilma, que eram 200 pessoas separadas por cada setor: uma equipe só para educação, uma equipe só para saúde, trabalhando de manhã e tarde de noite, virando o fim de semana, correndo atrás de informação no documento, levantando cada detalhe, cada item, já preparando medidas que precisariam ser tomadas nos primeiros dias do novo mandato. Então, isso não vem acontecendo.

O senhor considera que esse período de abril a dezembro seria uma oportunidade para tomar algumas medidas necessárias e deixar o estado minimamente equilibrado para o próximo governador?
Eu acho que pode sim ser uma oportunidade se for alguém realmente com esse desiderato, com esse objetivo, com essa missão e que tenha um perfil técnico e que não esteja preocupado com a questão política-eleitoral. Pelo menos assim, no curto prazo, porque eu tenho uma tese também que é a seguinte: muitas vezes a pessoa se preocupa em tomar medidas por questão de repercussão política eleitoral. Mas vamos avaliar que a grande forma de você falar por esse aspecto eleitoral, é tomando medidas. Porque no médio prazo você vai ter o usufruto político eleitoral daquelas medidas. São vários exemplos aí de governadores, de pessoas que recuperaram, tomaram medidas e depois foram aplaudidos pelo povo. No primeiro momento pode gerar algumas repercussões negativas, algumas reações. Às vezes são reações setorizadas, não é uma reação geral. Acho que hoje em dia o povo está aí para aplaudir quem toma medidas de responsabilidades, sérias, necessárias, desde que devidamente comunicadas, explicadas, contextualizadas. Mas as pessoas ficam sempre com esse receio: "Não, não vou fazer isso não porque isso vai desagradar muito o setor tal, fulano vai achar ruim e não sei quê" e termina depois caindo em desgraça do ponto de vista geral, porque não tomando aquelas medidas o paciente vai para a UTI. É a história da injeção. Se você aplicar, vai doer, o menino vai chorar, mas é necessário fazer. Depois ele vai lhe agradecer porque foi por conta daquilo que ele ficou curado. Quando você não aplica a injeção porque acha que vai doer, deixa a doença progredir e a coisa vai piorar. Simples assim.

Quais são as principais medidas que um novo governador tem que tomar para tentar colocar o RN no prumo?
Eu acho que a medida, em princípio, seria resgatar esse plano do Banco Mundial. Porque ele tá vivo, ele existe. Naturalmente precisaria passar por algumas atualizações, basicamente de planilhas. Resgatar e começar a aplicá-lo. Ele não é uma coisa que se faça talvez num período curto, ainda mais diante das circunstâncias que nós estamos mencionando aqui sem espaço para reparação de medidas, essa coisa, mas alguém que entre com esse objetivo: “rapaz, eu vou fazer aqui, vou dar uma contribuição para que o próximo governo, seja ele quem for, receba o estado com algumas coisas já encaminhadas, já direcionadas para um processo de recuperação fiscal".

Porque pode ser uma grande transição…

Exato. Perfeitamente. É exatamente sobre isso. Você já entra ali fazendo já como se fosse uma transição e já com medidas, porque essa transição quando você faz fora do governo, você só pode levantar, preparar, mas não pode implementar. No caso, vai ser uma uma transição implementadora de medidas; uma transição que pode estudar, preparar e implementar.

Sob essa ótica, esses oito meses que restam de governo poderia se converter em uma janela de oportunidade?
Exato. É uma janela que pode se converter em uma janela de oportunidade no sentido de que a pessoa que fique, esteja comprometida não com questões políticas eleitorais, mas com de fato equilíbrio do estado, recuperação fiscal e financeira do estado, que é bom para o estado no curto, no médio e longo prazo. Porque governo em fim de mandato é uma coisa complicadinha. É fim de festa. Ninguém quer mais se preocupar com nada, ninguém quer mais assinar nada, “não vou estar aqui depois, não vou mais fazer isso", entendeu? Assim, aquela energia mobilizadora, que é necessária, de esforço, de compromisso de garra, tal, desaparece. E se for um governo sem perspectiva de continuidade, é cada um ali por si, Deus por todos, enfim, é uma dificuldade grande, realmente.

"Quando o Estado fica em dificuldade financeira, os municípios ficam órfãos, porque o Estado era para ser um apoio para os municípios"

Como essa situação fiscal difícil do estado afeta os municípios?
Bom, de diversas formas. A começar porque os municípios são sócios do estado. Eles têm uma relação de independência econômica financeira com o estado. Primeiro porque ele, por conta da estrutura tributária da Constituinte, os municípios participam da receita estadual, da arrecadação estadual, do ICMS e do IPVA. Nós temos observado — e a Femurn tem feito esse trabalho — que o estado tem deixado de cumprir com obrigações constitucionais em relação a repasses desses recursos. Por exemplo, aquilo que é arrecadado através da dívida ativa, de ICMS e de IPVA, não vem sendo transferido aos municípios, o que é uma lástima. É um descumprimento grave da Constituição Federal, do capítulo da repartição tributária, questão federativa. E tem outras coisas, como as compensações que o Estado tem feito com a Cosern, compensações que recebeu por conta daquela Lei 194 que reduziu o ICMS de combustíveis e tal, que os estados tinham obrigação pela própria decisão do STF de repassar para os municípios que não vem repassando. Eu quero crer que parte desse não repasse, um dos fatores disso é exatamente o fato de o estado estar em dificuldade financeira. Então, os municípios começam a sofrer já daí, quando o estado deixa de cumprir com obrigações com os municípios. Depois, os estados, historicamente, têm um um papel de ajudar no investimento dos municípios, no cofinanciamento das políticas transversais, educação, saúde. Então, quando o estado está sem capacidade de investimento, de repassar recursos para financiar essas políticas, os municípios terminam tendo que se virar sozinhos. Se não tem um hospital regional do estado que funcione bem, o município tem que bancar, fazer tudo sozinho. Sem falar naquele recurso de investimento e convênio geralmente para fazer obras locais, como a questão do saneamento básico. Os municípios são de cara os mais afetados com essa situação do estado e de diversas formas. Eu estou dando aqui apenas alguns exemplos. Mas é muito preocupante a situação. Os municípios estão órfãos. Quando o Estado fica em dificuldade financeira, os municípios ficam órfãos, porque o Estado era para ser um apoio para os municípios. A gente vê, às vezes, o contrário: os municípios têm que botar gasolina na viatura da polícia, porque o estado não bota. Entre outras coisas.

O Rio Grande do Norte tem jeito?
Tem. Por sorte, o estado é rico, do ponto de vista de potencialidades econômicas, minerais, de toda sorte. Temos o turismo, temos a mineração, temos a fruticultura, temos as energias renováveis. O estado tem jeito, desde que seja feito um trabalho primeiro de dever de casa visando o equilíbrio das despesas com a receita. Segundo, de buscar uma forma de — vamos dizer assim — potencializar as oportunidades econômicas que o estado tem, de transformar isso em aumento de receita. Por exemplo, as energias renováveis, a eólicas e a solar, para efeito de implementação, foram muito beneficiadas com todo tipo de isenção. Não paga royalties, não paga ICMS. Mas aquilo era uma fase de implementação para poder incentivar os investimentos, vir todo mundo investir em energia renovável, questão ambiental, clima e tal. Mas isso já passou, não pode se perpetuar. Tá na hora de dizer: "Epa, espera aí, amigo, você já deu o empurrão inicial, abrimos mão de receitas e tudo, mas agora é o momento da gente arrumar essas contas. Vamos aqui chamar pra ponta do lápis, ver o que é que você vai contribuir, porque você está usando os recursos naturais do estado e todo mundo que faz isso tem que pagar as despesas". As empresas pagam imposto. É disso que o estado vive. Então, por exemplo, discutir essa questão. Nós temos aí sobre a égide da reforma tributária — que está para entrar em vigor — um fato preocupante que é para os estados do Nordeste aquela questão dos incentivos, da famosa guerra fiscal, vai perder o instrumento de incentivo fiscal. Vai haver compensações para isso, financeira, de fundo, que vai ser criado, está sendo criado, enfim. Então é o momento do estado tentar rearrumar essa situação de uma vez por todas. Precisa ter muita preocupação com a questão de mérito técnico. Os governos têm perdido a capacidade técnica de lidar com questões mais complexas. As decisões, a remuneração é baixa, quem é coordenador, diretor de qualquer coisa hoje no estado ou em qualquer ente público recebe muito pouco e isso afasta bons quadros. Fica sempre dependendo de consultorias e tal. E as consultorias, elas nunca têm um compromisso firme como teria um órgão público funcionando direitinho com bons quadros. Porque a consultoria é efêmera, ela entrega o pacote, vai embora e acabou. E às vezes você recebe aquele pacote e não sabe nem como executar. Não sabe nem como botar em prática, porque a fragilidade institucional dos governos é tanta que você não sabe preparar, não sabe planejar. Contrata alguém para planejar, alguém planeja e você não consegue executar o que foi planejado, porque você não tem gente, não tem quadro. Então esse é um fator que vem, vamos dizer assim, degringolando muito essa capacidade institucional de fazer coisas. Mas o Estado tem jeito, desde que foque nesses pontos. E tem outros mais. Tem muita gente boa que pode contribuir com isso também, tem várias pessoas que podem ajudar nisso. E o eleitor também tem de começar a valorizar esse aspecto. Porque isso é decorrência do fato que o eleitor não analisa aspectos técnicos, capacidade institucional, vai elegendo as pessoas por motivos os mais diversos, menos esse de que tem a relação direta com a capacidade de gestão.