RIACHO DA CRUZ APROVEITA O NATAL PARA GERAR DESENVOLVIMENTO
Como uma cidade na região do Alto Oeste Potiguar soube enxergar no Natal a oportunidade para atrair turistas e aquecer a economia local, gerando negócios, renda e oportunidades para a população. Investimento do tipo só dá certo se o município estiver bem organizado, frisa o prefeito, Marcos Aurélio Rêgo
Quem conhece a realidade dos pequenos municípios brasileiros sabe da dificuldade que é conseguir manter as contas em dia e, ao mesmo tempo, fazer investimentos que gerem desenvolvimento e renda para a população das cidades. É um equilíbrio tênue que, para ser alcançado, exige criatividade e atenção dos gestores no sentido de aproveitar oportunidades.
Um exemplo? A forma como a Prefeitura de Riacho da Cruz tem trabalhado, ano a ano, sua programação natalina para atrair visitantes, valorizar as empresas e a cultura local, gerar trabalho e renda e, de quebra, reaproximar famílias, levar alegria e gerar boas lembranças.
Pode até ser que, quando você estiver lendo esta reportagem, o período natalino já tenha passado. Mas o relato dessa experiência supera a questão do tempo. E quem está à frente dela é o prefeito Marcos Aurélio.
Trata-se do “Natal Encantado de Riacho da Cruz”, que em 2025 chegou à sua 8ª edição, com programação do dia 6 de dezembro de 2025 a 6 de janeiro de 2026.
O prefeito conta que vinha mantendo o festival de maneira mais tímida antes, mas que este ano conseguiu retomá-lo numa versão que deve ser a maior já realizada. Marcos Aurélio explica que o Natal Encantado envolve todos os grupos culturais da cidade e também conta com um encontro de orquestras filarmônicas de vários municípios.
Em meio à programação, há um encontro da terceira idade, com noite dedicada a esses grupos e direito a um legítimo forró pé de serra para garantir a animação. Tem ainda um desfile de escolas. Mas não se trata de um desfile cívico.
“É um desfile com a apresentação da parte cultural, que marca a abertura do Natal Encantado”, explica Marcos Aurélio Rêgo.
Toda a programação se dá em meio a uma Riacho da Cruz completamente decorada para o Natal, com luzes por toda a cidade e, inclusive, uma casa do Papai Noel. Um dado que pode dar uma ideia do tamanho da festa: para iluminar a cidade, foram instalados 26 mil metros de mangueira de LED.
Na programação estão incluídos também shows para o público gospel, católico e para quem gosta de “MPB das antigas”.
“E nós temos uma noite que é o Natal Solidário, quando a gente faz a distribuição de 700 cestas básicas de alimentos para as pessoas em vulnerabilidade no município”, informa.
A programação não para por aí. Há uma noite voltada para as crianças, com cinema 3D, personagens, distribuição de pipoca, de algodão doce, essas coisas de criança. E há duas noites nas quais é apresentado o Auto de Natal de Riacho da Cruz.
“É uma peça criada por jovens do nosso município. Eles fazem duas apresentações que envolvem mais de 40 pessoas”, detalha o prefeito.
“Nós somos uma cidade pequena, mas, por conta de um evento desses, a expectativa é que passem pelo município de 30
a 40 mil pessoas. Geralmente nas noites dos shows passam de 10 mil a 15 mil pessoas”

Como se vê, trata-se, na verdade, de um verdadeiro festival que a prefeitura promove e que envolve toda a cidade, gerando renda e aquecendo a economia local, tirando proveito do chamado turismo de eventos.
“Apesar de nós não sermos serranos, nós estamos localizados geograficamente entre dois municípios serranos, Martins e Portalegre, que têm um fluxo bom de turismo. Então, a gente está pegando esse gancho do turismo de eventos”, explica o prefeito.
Ele acrescenta que Riacho da Cruz faz parte da Instância de Governança Regional (IGR) da Rota do Frio, que também compreende cidades como Serrinha dos Pintos, Viçosa e Umarizal.
“Nós somos uma cidade pequena, mas, por conta de um evento desses, a expectativa é que passem pelo município de 30 a 40 mil pessoas. Geralmente, nas noites dos shows, passam de 10 mil a 15 mil pessoas”, informa, dando a dimensão clara de como vale a pena investir para promover eventos do tipo.



Ele estima que, ao todo, o Natal Encantado tenha um investimento de cerca de R$ 1 milhão. Mas afirma que o retorno para a cidade é muito maior porque fomenta a economia local por meio de pequenos negócios na área de alimentação e artesanato, por exemplo, que passam a funcionar aproveitando o estímulo dado pela prefeitura.
“Fomenta o comércio local, que aumenta sensivelmente, dos formais aos informais. A gente tem uma área, um pavilhão, que é dedicado à gastronomia. E ao longo da avenida também várias pessoas botam seus pequenos negócios”, diz.
“Não é um investimento pequeno, mas a gente sabe que a cadeia do turismo, ela tem um poder muito forte de transformar a economia dos municípios”

Além disso, a prefeitura intermediou um trabalho com o Sebrae-RN visando a profissionalização desses pequenos empresários.
“A gente trouxe uma parceria com o Sebrae para fazer treinamento dessas pessoas e mostrar a importância delas crescerem. Quem tem desde do mercadinho ao restaurante, ao bar, cabeleireiro, a manicure e pedicure, enfim, toda cadeia de serviço de comércio no município”, afirma.
Outro diferencial em Riacho da Cruz é a exigência de que as empresas contratadas para prestar serviço usem mão de obra local.
“É uma exigência que a gente faz. Então, isso fortalece a economia e gera, na questão dos informais, uma renda extra no período”, observa.
Ele avalia que promover o “Natal Encantado” em Riacho da Cruz é um investimento válido porque também fortalece a região.
“Nós temos um município vizinho como Portalegre aqui, que está fazendo também o Natal, uma festa boa. Então, você dá uma visibilidade bem maior para a região. É uma forma de você atrair pessoas, atrair investimentos para a região, porque até alguém que pensa em construir uma pousada, um empreendimento, começa a ver a região com outros olhos”, argumenta.
E acrescenta:
“Não é um investimento pequeno, mas a gente sabe que a cadeia do turismo tem um poder muito forte de transformar a economia dos municípios. Então, quem tem esse pensamento de investir não tem dúvida que isso pode ser feito”.


O “Natal Encantado de Riacho da Cruz” tem ainda um ganho imaterial, que é o de fortalecer ou restabelecer laços familiares, porque a festa acaba estimulando que filhos da terra que moram fora venham passar ou visitar a cidade durante o período.
“É um período que você começa a ver uma convivência maior e a confraternização dessas famílias. Muitos não se veem o ano inteiro e deixam para vir nesse período. É uma festa bem interessante. É diferenciada, por se tratar de um município pequeno”, ressalta.
O prefeito de Riacho da Cruz faz uma relação com Gramado, no Rio Grande do Sul. Claro que não são festas do mesmo porte, mas proporcionalmente — argumenta ele — “o município fica tão embelezado quanto Gramado”.









DEVER DE CASA
Aproveitar uma oportunidade para gerar renda como Riacho da Cruz faz, contudo, não é para todos. Marcos Aurélio Rêgo sabe bem disso e argumenta que só é possível realizar algo do tipo de investimento porque fez o dever de casa, ou seja, tem uma prefeitura organizada. O prefeito entende bem desse assunto: essa é a 4ª vez que ele administra o município.
“Nós temos um estádio de futebol com 3 mil pessoas, nós temos uma praça de eventos onde cabem 28 mil pessoas, nós temos 70% da cidade saneada; nós temos uma infraestrutura de escolas com salas de aula climatizadas, desde a creche até o fundamental; nós temos um hospital maternidade; e nós temos unidade de saúde UBS”, cita, para comprovar a boa estrutura do município.
Além disso, ele afirma que Riacho da Cruz é uma das cidades mais limpas do Rio Grande do Norte.
“Quem conhece sabe que Riacho da Cruz investe muito nessa área de urbanismo e limpeza. Se você andar na cidade, dificilmente encontrará algum lixo. Somos uma administração que tem um planejamento”, defende.
Outra demonstração de que a Prefeitura de Riacho da Cruz faz bem seu dever de casa são as obras que estão sendo realizadas. Uma delas chama a atenção pela iniciativa inovadora e sustentável: a prefeitura da cidade está desenvolvendo uma farmácia viva, que deve ser a primeira do Rio Grande do Norte fora de Natal.
Para desenvolver isso, o prefeito conta com uma parceria com uma farmácia viva que existe em Natal, ao lado do Hospital João Machado. Essa unidade é resultado de uma parceria entre a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A iniciativa conta com a aprovação do Ministério da Saúde.
“Nós temos um município vizinho como Portalegre aqui, que está fazendo também o Natal, uma festa boa. Então, você dá uma visibilidade bem maior para a região.
“A gente está no processo. Já tem várias plantas e estamos trabalhando para construir o laboratório fitoterápico também para ter a medicação feita na nossa própria farmácia”, explica Marcos Aurélio Rêgo.
A ideia é que, quando conseguir produzir seus próprios remédios, eles sejam distribuídos sem custo para a população. “Até para você conseguir diminuir a dependência de alguns tipos de medicamentos”, observa ele.



Outra iniciativa que está sendo desenvolvida pelo prefeito é a de que Riacho da Cruz deixe de ser apenas ponto de passagem e se torne ponto de parada de visitantes. Para isso, há uma intenção de fomentar a produção de artesanato. Ele lembra que, independente disso, há já um movimento de pessoas que param para ver a cidade porque ela chama a atenção.
Ele lembra uma atração específica: uma praça que começou a ser decorada no início dos anos 2000 e que hoje em dia chama a atenção, por uma razão inusitada.
“A gente tem uma praça lá que se chama Praça da Branca de Neve. Todo mundo que passa lá tira foto, porque tem uma Branca de Neve lá com os sete anões”, descreve.
E conta: “A praça da Branca de Neve era antes pequena e depois foram aumentando. Aí virou atração. Quem passa na cidade, em geral, para e vai tirar fotos. As crianças pedem para parar. E ela está decorada para o Natal”.



NOVAS OBRAS EM 2026
Atualmente, a Prefeitura de Riacho da Cruz está construindo uma Unidade Básica de Saúde e também está avançando com a questão do saneamento da cidade, que aguarda aprovação na Caixa Econômica. Quando conseguir finalizar essa obra, a cidade estará 95% saneada, algo difícil de se ver. A expectativa do prefeito é que essa obra comece no primeiro semestre de 2026.
Com relação à UBS, a obra já foi iniciada e a previsão de entrega é junho do ano que vem.
Além disso, a Prefeitura de Riacho da Cruz está planejando a construção de um galpão visando a atração de alguma empresa para a cidade. “Uma bonelaria, por exemplo. A gente constrói o galpão e dá a estrutura para eles se instalarem. A ideia é gerar emprego”, diz o prefeito.
Em janeiro de 2026 também está previsto o início da construção de 25 unidades habitacionais e outras 55 serão construídas na cidade, mas por meio de financiamento. “O município entra com um terreno, a infraestrutura para baratear a prestação. Então a gente tem a previsão de mais 55. Ou seja, serão 80 casas no próximo ano”, detalha. No caso, as 25 primeiras já estão contratadas.


VITÓRIA EM DEZEMBRO
No mês de dezembro de 2025, o prefeito de Riacho da Cruz e todos os outros gestores municipais conseguiram uma vitória na Assembleia Legislativa: a aprovação do projeto do deputado Gustavo Carvalho que disciplina o repasse de impostos recolhidos pelo Estado aos municípios.
Marcos Aurélio Rêgo explica que as cidades têm direito a parte de impostos como o IPVA e o ICMS. Mas esses tributos caíam na conta do Estado e depois eram repassados. O que acontecia? Muitas vezes o dinheiro não chegava no momento previsto, o que gerava a quebra da programação financeira das cidades. Agora, com a aprovação na ALRN, isso deve mudar.
“Agora, automaticamente o banco já vai reter e repassar direto ao município”, esclarece. Ele reclama que antes dessa lei, o que ocorria era que o estado acabava usando os recursos que deveriam ser repassados para pagar suas contas. “O estado está se apropriando dos nossos recursos para pagar a folha deles. E deixa os municípios a ver navios”, critica.
Ele exemplifica: “Um município pequeno como o nosso, só da questão do FUNDEB — que é a parte do estado que vem — tem algo em torno de R$ 90 mil, que não entrou nessas últimas duas semanas”.


MAIORES DESAFIOS
Essa questão de recursos que o prefeito cita não é algo isolada. Na realidade, atualmente, isso está ligado ao que ele considera a maior dificuldade das cidades: a insegurança orçamentária. “É muito difícil você trabalhar em um município que depende, vamos dizer, 90% das receitas oriundas de fundo de participação e dos ICMS”, aponta.
E acrescenta: “E você não tem uma certeza desse recurso. Sempre as previsões, elas são aquém do que é programado nos orçamentos. Costumo dizer que nesse pacto federativo os municípios são os maiores pagadores da conta, porque a grande maioria dos recursos são centralizados na União”.
O prefeito critica o fato de que, em geral, sempre que são pensadas políticas de isenção, o dinheiro sai exatamente do bolo que abastece os municípios. “Pode olhar: toda a política de incentivo fiscal do Governo Federal sempre é em cima desses dois tributos (imposto de renda e IPI). Sempre é no bolso do município. Ele não mexe nada nas contribuições do PIS, do INSS”, reclama.
Marcos Aurélio Rêgo comenta que para 2026 há inclusive um alerta ligado. “A gente tem uma preocupação muito grande a partir de janeiro. Ninguém é contra a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. Mas isso vai refletir diretamente. Se o governo não tiver uma forma de repor isso, a situação das prefeituras no próximo ano vai ser bem mais difícil”, diz.
Diante de tantas dificuldades, o prefeito comenta que só há uma forma de conseguir manter o município organizado e promover um evento como o “Natal Encantado”. “É matando um elefante a cada dia. É não dando um passo maior do que a perna. Porque a gente sabe que tem as responsabilidades fiscais a serem cumpridas. Mas é muito, muito, muito difícil”, afirma.
Para completar as dificuldades, Marcos Aurélio Rêgo cita ainda a questão das emendas, cujo repasse não está se dando como deveria. “Nós estamos chegando ao final do ano com muito município sem receber o repasse de emendas e isso traz uma série de problemas para a gente. Porque são recursos que vêm para aumentar a área de saúde. Para dar um suporte melhor em alguma coisa de infraestrutura, mas até isso a gente tá sendo penalizado também”, desabafa.
Ele acredita que da forma como a situação está, só resta aos prefeitos aguardar 2026 e torcer para que tudo se ajuste. Na avaliação do prefeito, como solução final para este problema, só há uma saída: rever o pacto federativo para dar mais condições às cidades.
“Se o município não estiver bem, o estado não vai estar bem, nem a União vai estar bem. E no município onde as coisas acontecem. É a porta de entrada. Os municípios são responsáveis por todos os programas que dão holofotes ao governo federal, como o Bolsa Família. Tudo que você pensar de programa não existe sem a participação do município”, afirma.
Marcos Aurélio Rêgo lembra ainda que há uma outra preocupação rondando as cidades. O reajuste do piso dos agentes de saúde, que vai impactar as contas municipais a exemplo do que ocorreu com o piso dos professores. É mais uma dificuldade com a qual os prefeitos terão de lidar.
“Eu digo muito: se os prefeitos tivessem a consciência do poder que os municípios têm para o país, a gente não estaria nesta situação. A categoria se reúne, vai e briga. A gente faz uma marcha em Brasília com 5 mil prefeitos, discurso bonito de todo mundo, vai presidente da República, vai presidente do congresso, tudo. Quando a gente sai de lá, a coisa continua do mesmo jeito: é o pires na mão do mesmo jeito”, analisa.





