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SER HUMANO, ESSE ANIMAL QUE FALHA

Spread the loveBahia de Todos os Santos, mar calmo. Protegendo-se da soalheira com chapéus presos por baixo do queixo, dois homens conversavam distantes do marinheiro que pilotava a lancha de serviço. A diferença de idade entre eles, era de uns vinte e poucos anos. — Ficou muito bonita — disse o mais velho e dono […]

Bahia de Todos os Santos, mar calmo. Protegendo-se da soalheira com chapéus presos por baixo do queixo, dois homens conversavam distantes do marinheiro que pilotava a lancha de serviço. A diferença de idade entre eles, era de uns vinte e poucos anos.

— Ficou muito bonita — disse o mais velho e dono da empresa construtora, quando a lancha se aproximava de uma ponte recém-construída pela equipe liderada pelo mais novo.

— Obrigado, Chefe — disse o outro.

O mais velho, dono da Construtora, prosseguiu:

— Pois é, agora espero que o “senhor” contribua e cresça muito na Construtora, porque acabo de investir três milhões para lhe treinar.

Esse havia sido o prejuízo que a obra deixara.

Antes que eu me esqueça: o jovem engenheiro fez história naquela Organização, ocupando todos os cargos de direção, chegando à Diretor Presidente.

Corta.

Nova York, USA, sala de Tom Watson, presidente da IBM. Diante de Watson, um jovem recentemente promovido a gerente sênior, que estivera à frente de um projeto que dera um prejuízo de dez milhões de dólares. Ele fora chamado, minutos antes, ao gabinete do presidente. Trêmulo, lívido, em pé diante da mesa do Chefe, pigarreou umas duas vezes e tentou repetir as palavras que havia pensado e repensado na noite de horror que passara na véspera.

— Sr. Watson, eu não tenho palavras. Posso lhe garantir, pela minha honra, que me esforcei ao máximo, dei o melhor de mim, mas não consegui. Deixarei a empresa eternamente grato pela confiança e, rogando seu perdão…

Watson fixou o olhar nos olhos daquele jovem por uns segundos e, colocando as palmas das duas mãos na mesa, levantou-se e disse:

— Como é, rapaz? Acabo de investir dez milhões na sua formação e você está pensando em sair da empresa?

Os dois casos acima são reais. Eles evidenciam que existem outras formas de lidar com o erro, além dos gritos em explosões autoritárias, ataque à dignidade das pessoas, demissão sumária etc. Eles evidenciam que o erro pode ser percebido como uma excelente forma de aprendizagem.

Agora vem a melhor parte. Tudo isso aponta um caminho que começa muito longe. Lá atrás, no começo de tudo.

Comparemos o nascimento e o primeiro dia de vida de um bebê humano e os filhotes de alguns outros animais. Parece claro que nós nascemos inacabados, enquanto, em muitos outros animais, a natureza completou a sua obra.

Você já viu o nascimento de uma girafinha em algum documentário tipo Animal Planet, que usamos — erradamente — em noites de insônia?

O filhote cai de uma grande altura; passados alguns instantes, se livra da placenta e fica em pé. Daí a pouco, está dando seus primeiros passos. Se um recém-nascido humano caísse daquela altura, dificilmente sobreviveria. E mais: até conseguir colocar um pé na frente do outro, cairá, em média, duas mil vezes e, como comenta Charles Pépin (2016), são dois mil fracassos antes do primeiro sucesso.

Aqui nós temos dois pontos de atenção.

O primeiro é surpreendente. Zoólogos, ao comparar o desenvolvimento embrionário dos humanos ao dos chimpanzés, gorilas e orangotangos, concluíram que a gestação dos humanos deveria durar 21 meses em vez de nove. Fazendo as contas: deveríamos nascer uns 12 a 13 meses mais tarde.

Seria um erro, uma falha da natureza?

Não é o que diz a ciência, que, aliás, vem sendo ignorada e surrada impiedosamente pela burrice arrogante e satisfeita que nos ameaça diariamente nestes dias.

Enfim, o que diz a ciência é que, como em algum momento da trajetória da evolução da nossa espécie nos tornamos bípedes — o que, entre outras extraordinárias mudanças, fez a nossa pelve ficar mais estreita —, a partir daí temos a hipótese de que a largura da pelve se tornou incompatível com uma longa gestação, com o tamanho a que chegava o feto. Em consequência, a maioria das mulheres morria no parto. A alternativa foi antecipar o parto, fazer o feto nascer por volta dos nove meses, ainda que não estivesse pronto e acabado.

Diante dessa hipótese, Pépin, que já citamos acima, chega a uma interessante conclusão: é justamente por chegarmos ao mundo antes da hora que temos de aprender com nossas tentativas, nossos tateares, nossos fracassos.

Agora vamos ao segundo ponto, que, além de surpreendente, considero fascinante.

Acho que ninguém ouviu falar de uma aranha que não saiba tecer sua teia. Ela não erra, sai tudo na medida. Ela não falha, porque ela tem um software embutido, que estamos acostumados a chamar de instinto. Da mesma forma, as abelhas e as formigas jamais transmitem às companheiras informações falsas ou erradas sobre a localização das fontes de néctar ou o caminho para encontrar o alimento. Os sinais são emitidos e recebidos com perfeição. Não há erro.

Em compensação, aquele bebê, tão frágil e indefeso ao nascer, que encontramos alguns parágrafos atrás, pode vir a ser uma grande líder política que combata a fome e a miséria, um grande empreendedor, um cientista que amplie as fronteiras do conhecimento, e por aí vai.

E aquela girafinha? Bem, ela se desenvolverá e será uma graciosa e elegante girafa, e assim será sempre. Ela e todos os da sua espécie.

Outro bom exemplo é compararmos um formigueiro ou uma colmeia de 300 ou 1.000 anos atrás com as de hoje. Como sabemos, são rigorosamente iguais.

Vendo e refletindo sobre essas maravilhas, Jean-Jacques Rousseau, lá por volta do ano de 1755, disse que a grande diferença entre nós e os outros animais é que a natureza faz tudo nas ações do animal, enquanto o homem concorre para as suas, na qualidade de agente livre. O animal escolhe ou rejeita por instinto, e nós, humanos, por um ato de liberdade.

Se, por um lado, isso é maravilhoso, por outro, como sabemos, tem um preço. Um elevadíssimo preço.

Se por um lado isso é maravilhoso, por outro, como sabemos, tem um preço. Um elevadíssimo preço.

É por sermos livres que padecemos de dúvidas, nos martirizamos quando falhamos, temos crises existenciais, nos angustiamos com a certeza da morte.

Não duvido que alguém por aí não imagine se não seria melhor sermos apenas instinto. Já chegarmos ao mundo com um “soft residente” pronto pra rodar e o HD ou SSD quase cheio.

É, pode ser. Há quem se comporte assim. Talvez até seja o que deseja aquele “líder” que só aceita a completa submissão dos seus liderados, que só recebe no seu gabinete os que sempre trazem boas notícias e só boas notícias. Ou aqueles que estão convencidos que educar é uma via de mão única e que cada educando deve ser uma tela em branco que será preenchida pelo que os educadores disserem.

É exatamente aí que estaríamos — ou estamos — perdendo o maior de todos os atributos do ser humano. A qualidade que nos torna únicos.

E que qualidade é essa?

Rousseau explica assim:

Há outra qualidade muito específica que os distingue (o homem do animal), e sobre a qual não pode haver contestação: é a faculdade de se aperfeiçoar, faculdade que, com a ajuda das circunstâncias, desenvolve sucessivamente todas as outras e reside em nós, tanto na espécie quanto no indivíduo.

Ou seja, o animal, ao fim de algum tempo, é o que será por toda a vida. Será nos “próximos mil anos o que foi no primeiro desses mil anos”.

A liberdade nos torna capazes de nos aperfeiçoarmos. Temos essa virtude que Rousseau chama de perfectibilidade.

O ser humano falha porque é livre. E sendo livre, pode aperfeiçoar-se, evoluir. Mas, atenção, evolução não significa apenas mudar para melhor. Na medicina há expressões do tipo: o paciente evoluiu para o óbito. É o mesmo filósofo que diz que essa liberdade que permite que nos aperfeiçoemos também pode levar alguns a tornar-se um imbecil. Risco que não correm os que agem apenas por instinto.

Luc Ferry, filósofo, ex-ministro da Educação da França, publicou, em 2006, um livro de filosofia em linguagem simples, coisa pra quem não é filósofo, que se tornou um best-seller. Incrível, um livro de filosofia tornar-se best-seller. Nesse livro, ele apresenta uma constatação chocante: o ser humano é o único a fazer uso do mal como um projeto. Os animais podem até matar com certa crueldade suas presas, mas nenhum deles é capaz de se organizar conscientemente para fazer tanto mal quanto possível a seu próximo.

Diante de tudo isso, a mim parece que a questão é buscarmos a melhor forma de lidarmos com os nossos fracassos e com os dos nossos semelhantes, sobretudo dos que nos cercam.

Vamos carregar em sofrimento nossas falhas ou transformá-las em aprendizado e energia para o nosso crescimento?

Nelson Mandela fez sua escolha:

Eu nunca perco. Ou ganho ou aprendo.


“O ser humano falha porque é livre.E sendo livre, pode aperfeiçoar-se, evoluir. Mas, atenção, evolução não significa apenas mudar para melhor”